Capítulo 2
Crítica à comunicação
Críticas: comunicação é organização
Ao longo de nosso debate, um tema se destacou de forma quase unânime: a comunicação.
Mais do que uma discussão sobre linguagem ou estilo, compreendemos que a forma como a esquerda comunica revela sua própria estratégia política. A linguagem nunca é um detalhe. Ela determina quem participa do debate, quem se reconhece como sujeito político e quem permanece apenas como espectador.
Por isso, afirmamos que comunicação é organização.
Toda escolha de linguagem aproxima determinados setores sociais e afasta outros. Toda palavra utilizada pressupõe um interlocutor. Todo texto, consciente ou inconscientemente, escolhe para quem está sendo escrito.
É justamente por isso que entendemos que discutir comunicação não significa discutir marketing político. Significa discutir estratégia revolucionária.
O problema da linguagem
Provavelmente este foi o tema que ocupou mais tempo em nossas reuniões.
Embora o documento apresente uma análise consistente, sua linguagem pressupõe um conjunto de conhecimentos que grande parte da população brasileira simplesmente não possui.
Isso não acontece porque as pessoas sejam incapazes de compreender política. O problema é outro.
Vivemos em um país marcado pelo analfabetismo funcional, pela precarização da educação pública, pelo enfraquecimento das Humanidades, pela sobrecarga do trabalho e por uma cultura digital baseada em conteúdos curtos, fragmentados e altamente disputados por algoritmos.
Nesse contexto, um texto excessivamente técnico deixa de cumprir uma de suas funções fundamentais: organizar politicamente aqueles que pretende representar.
Ao longo do debate surgiram críticas recorrentes ao excesso de conceitos especializados, ao uso frequente de jargões políticos, às frases excessivamente longas e à baixa quantidade de exemplos concretos.
Nossa preocupação, entretanto, não é apenas com a forma do texto. É com sua capacidade de produzir organização. Uma pergunta tornou-se recorrente durante nossas discussões:
Para quem esse documento foi escrito?
Se o principal destinatário já domina categorias como neoliberalismo, fascismo, dependência ou luta de classes, provavelmente ele já pertence aos círculos organizados da esquerda. Mas se nosso objetivo é ampliar nossa base social, disputar consciência e organizar novos sujeitos políticos, precisamos construir uma linguagem capaz de dialogar também com aqueles que ainda não compartilham nosso vocabulário.
Comunicar é partir da experiência das pessoas
Durante nosso debate, uma camarada professora compartilhou uma reflexão surgida de sua experiência cotidiana em sala de aula.
Ela relatou que muitos estudantes chegam ao Ensino Médio sem compreender plenamente conceitos como fascismo, nazismo, imperialismo ou mesmo elementos básicos da história brasileira. Muitos apresentam dificuldades significativas de leitura e escrita. Outros constroem quase toda sua visão de mundo a partir das redes sociais.
Essa realidade não deve ser interpretada como incapacidade intelectual da população. Ela é resultado de décadas de desmonte da educação pública, da desvalorização das Humanidades e da precarização das condições de aprendizagem.
A teoria deixa de ser um ponto de partida e passa a ser uma ferramenta para interpretar a realidade que as pessoas já conhecem porque a vivem diariamente.
Essa mudança parece pequena. Em nossa avaliação, ela representa uma profunda transformação na maneira como a esquerda produz comunicação política.
A crise da linguagem da esquerda
As reflexões produzidas em nosso debate ultrapassam o documento da Bancada da Esquerda Radical. Identificamos um problema mais amplo: Em muitos momentos, parte significativa da esquerda brasileira escreve como se estivesse dialogando apenas consigo mesma.
Os documentos circulam entre militantes já convencidos, utilizam referências conhecidas apenas por setores organizados e pressupõem níveis de formação política muito superiores à realidade encontrada entre a maioria da população trabalhadora.
O resultado é uma contradição.
Defendemos a organização da classe trabalhadora, mas produzimos materiais cuja compreensão exige percursos formativos aos quais a maior parte da própria classe trabalhadora nunca teve acesso.
Não se trata de abandonar conceitos complexos. Trata-se de reconhecer que conceitos existem para explicar a realidade — e não para substituir a realidade.
Uma linguagem excessivamente acadêmica produz um efeito paradoxal: quanto mais sofisticada parece internamente, menor tende a ser sua capacidade de disputar consciência fora dos espaços já organizados.
Propostas para uma comunicação popular
Tirar o véu da ideologia: questionando sobre a vida
Se a comunicação organiza a ação política, ela também organiza a forma como as pessoas compreendem a própria realidade.
Nenhuma sociedade é sustentada apenas pela força. Ela depende também da produção permanente de consensos, valores e explicações que fazem a ordem existente parecer natural, inevitável ou até desejável. É isso que chamamos, em sentido amplo, de ideologia dominante.
Quando um trabalhador acredita que seu salário é baixo porque "não se esforçou o suficiente", quando uma mãe atribui a falta de atendimento médico apenas à incompetência de um servidor público, quando alguém entende o desemprego como um fracasso exclusivamente individual ou quando o aumento do preço dos alimentos é visto como um fenômeno inevitável, a ideologia dominante já cumpriu parte de seu papel: transformar problemas coletivos em responsabilidades individuais.
É justamente por isso que acreditamos que a comunicação política da esquerda não deve começar oferecendo respostas. Ela deve começar formulando perguntas.
Perguntas rompem automatismos, revelam contradições, despertam curiosidade. Perguntas permitem que as próprias pessoas relacionem suas experiências individuais às estruturas sociais que produzem essas experiências.
- Quem ganha quando o salário perde poder de compra?
- Por que trabalhamos cada vez mais e parece que nunca conseguimos viver com tranquilidade?
- Quem decide o preço dos alimentos?
- Por que alguns setores da economia acumulam lucros recordes enquanto aumenta o número de famílias endividadas?
- Quem se beneficia quando a saúde pública é enfraquecida?
Essas perguntas não possuem apenas função didática. Elas possuem função organizadora.
Ao convidar alguém a refletir sobre sua própria vida, abrimos espaço para que ela reconheça que aquilo que parecia um problema exclusivamente pessoal é, muitas vezes, expressão de relações sociais muito mais amplas.
Mas esse processo exige também humildade política.
Perguntar não é apenas conduzir uma conversa; é estar disposto a ouvir as respostas.
A escuta ativa deve ocupar lugar central em qualquer estratégia de comunicação popular. Não porque a classe trabalhadora já possua todas as respostas prontas, mas porque ela possui aquilo que nenhuma teoria pode produzir sozinha: a experiência concreta da exploração, da opressão, da sobrevivência e da resistência.
É desse encontro entre elaboração teórica e experiência vivida que nasce uma comunicação verdadeiramente transformadora.
Não se trata de levar consciência a quem supostamente não a possui. Trata-se de construir consciência coletivamente, permitindo que a realidade fale por meio daqueles que a vivem todos os dias.
Talvez seja justamente esse o primeiro passo para retirar o véu da ideologia: não começar pela teoria, mas pela vida.
A disputa acontece onde o povo está
Outro consenso importante de nosso debate foi reconhecer que a disputa política já mudou de lugar.
Ela acontece diariamente nos grupos de WhatsApp, nos vídeos curtos do TikTok, no Instagram, no YouTube, no Kwai, nas rádios comunitárias, nas igrejas, nas escolas, nos locais de trabalho, nas filas dos postos de saúde, nos ônibus e nas conversas de bairro.
É nesses espaços que grande parte da população constrói suas interpretações sobre a realidade, forma opiniões, compartilha experiências e estabelece vínculos políticos e culturais.
Por isso, não basta produzir bons documentos.
Uma estratégia socialista-comunista de comunicação precisa produzir materiais capazes de circular nesses espaços, utilizando linguagens adequadas aos diferentes públicos e disputando a atenção de setores que muitas vezes nunca terão contato com uma resolução política ou um artigo de conjuntura.
A juventude, especialmente, ocupa um papel central nesse desafio. Grande parte de sua formação política, cultural e social ocorre hoje em ambientes digitais. Ignorar esses espaços significa abrir mão de uma parte fundamental da disputa pelo futuro.
Entretanto, ocupar esses meios não significa alimentar ilusões sobre eles.
As grandes plataformas digitais não são espaços neutros de circulação de ideias. São empresas privadas, muitas delas sediadas nos países centrais do capitalismo, organizadas a partir de interesses econômicos próprios e submetidas às lógicas do mercado, da publicidade e da disputa geopolítica.
Uma comunicação radical precisa compreender que utiliza ferramentas que não controla.
A esquerda já experimenta diferentes formas de limitação nesses espaços: redução de alcance, bloqueios, exclusões de contas, mudanças de algoritmos e mecanismos pouco transparentes de moderação. Não podemos ignorar que uma disputa política radical necessariamente encontrará limites quando realizada dentro de estruturas empresariais que não possuem compromisso com um horizonte revolucionário.
Mas reconhecer essas limitações não significa abandonar esses espaços.
Pelo contrário.
Precisamos disputar essas ferramentas enquanto elas forem possíveis, utilizando-as da melhor forma, construindo presença, formando militância e alcançando pessoas que talvez nunca tenham contato com outras formas de organização política.
Ao mesmo tempo, uma estratégia radical não pode reduzir comunicação à presença digital.
A disputa política também acontece nos espaços institucionais e comunitários onde a classe trabalhadora se organiza concretamente: sindicatos, associações de moradores, escolas, universidades, movimentos populares, locais de trabalho e espaços culturais.
Esses territórios continuam sendo fundamentais porque permitem construir relações permanentes, formar consciência coletiva e transformar indivíduos isolados em sujeitos organizados.
Mas existe ainda um espaço que nenhuma organização revolucionária pode abandonar: a rua.
A rua e a praça não são apenas lugares físicos. São espaços históricos de manifestação popular, encontro, organização e disputa política. São territórios que pertencem ao povo e que não podem ser substituídos completamente por nenhuma plataforma digital ou instituição formal.
A comunicação radical precisa estar onde as pessoas estão.
Mas, sobretudo, precisa estar onde as pessoas se encontram, conversam, se organizam e constroem coletivamente sua força.
Nenhum algoritmo substitui a presença. Nenhuma plataforma substitui o território. Nenhuma tela substitui a rua.
Considerações parciais: traduzir não é simplificar
Ao encerrarmos este capítulo, gostaríamos de enfrentar uma falsa oposição que frequentemente aparece no debate sobre comunicação política: a ideia de que tornar uma mensagem mais acessível significa necessariamente diminuir sua profundidade.
Discordamos dessa compreensão. Traduzir uma ideia não significa empobrecê-la. Significa aproximar teoria e experiência.
Uma teoria revolucionária não existe para permanecer restrita aos círculos que já dominam seu vocabulário. Ela existe para interpretar a realidade e, a partir dessa compreensão, contribuir para transformá-la.
Marx não escreveu para que apenas especialistas debatessem a exploração capitalista. Escreveu para revelar os mecanismos que organizam a sociedade e permitir que trabalhadores compreendessem as relações que atravessam sua própria existência.
Paulo Freire não defendeu uma educação popular porque acreditava que o povo precisava receber conhecimento pronto. Sua proposta partia justamente do contrário: as pessoas já possuem experiências, saberes e leituras do mundo que precisam ser valorizadas e aprofundadas.
Nenhum dos dois acreditava que tornar uma ideia compreensível significasse torná-la menos rigorosa. Ao contrário. Uma teoria demonstra sua força justamente quando consegue explicar a realidade vivida pelas pessoas comuns, quando permite que uma experiência individual seja compreendida como parte de uma estrutura social mais ampla e quando transforma indignações isoladas em consciência coletiva.
Por isso, a questão central não é simplificar nossas ideias. É superar a distância entre nossas ideias e a realidade daqueles que pretendemos organizar.
Se uma elaboração política só pode ser compreendida por especialistas, talvez o problema não esteja na população. Talvez esteja na forma como nós, enquanto esquerda, aprendemos a produzir e comunicar nossas próprias ideias.
Uma esquerda que deseja transformar a sociedade precisa ser capaz de falar sobre o mundo como ele é vivido. Precisa transformar conceitos em ferramentas de compreensão, não em barreiras de acesso.



