O texto que segue nasceu de uma conversa no Encontro de Terça do dia 08 de setembro, em que decidimos olhar para o próprio espaço que estamos construindo. Mais do que simplesmente avaliar se os encontros estão dando certo ou não, a proposta era fazer um balanço da experiência, reconhecer os avanços, identificar os limites e pensar coletivamente em caminhos para fortalecer e expandir esse espaço.
Ao longo dessa conversa, surgiram diferentes questões: como atrair mais pessoas para os encontros? Como fazer com que aqueles que chegam se sintam mais à vontade para participar? Como transformar as discussões das terças em conteúdos que possam circular para além da reunião? Que outros formatos podemos experimentar? E, por trás dessas questões mais práticas, apareceu uma pergunta ainda mais fundamental: que tipo de espaço político queremos construir?
Os Encontros de Terça têm sido uma experiência importante justamente porque conseguiram reunir pessoas com trajetórias, experiências e posições diferentes em torno de algumas convergências, criando um ambiente de diálogo, formação e construção coletiva. Preservar e ampliar essa experiência, porém, exige pensar também sobre a maneira como recebemos quem chega, como lidamos com as divergências e como criamos condições para que uma pessoa deixe de ser apenas espectadora e possa, pouco a pouco, tornar-se participante e construtora do espaço.
Foi nesse ponto que o debate sobre acolhimento ganhou uma dimensão maior. Acolher não diz respeito apenas a ser receptivo ou cordial. Diz respeito à própria prática política: à nossa capacidade de escutar, dialogar, criar vínculos, reconhecer processos diferentes de conscientização e construir ambientes nos quais as pessoas possam questionar, aprender e também transformar suas próprias posições.
A reflexão a seguir parte, portanto, de uma experiência muito concreta — os próprios Encontros de Terça — para pensar uma questão que ultrapassa esse espaço e diz respeito à construção política da FERA: como acolher mais e melhor sem abrir mão da firmeza política? Como fazer da escuta e do diálogo instrumentos de politização e organização?
É a partir dessas perguntas que apresentamos
Encontro de Terça · 08 de setembro
Acolher também é fazer política — mais Paulo Freire, menos Stalin
Pensar o acolhimento não é pensar apenas em como receber melhor uma pessoa que chega. É pensar que tipo de ambiente político queremos construir e que tipo de sociabilidade queremos experimentar dentro dos nossos espaços. Como criar ambientes menos tóxicos? Como reproduzir, em outros espaços, parte da experiência de construção coletiva que conseguimos desenvolver nos Encontros de Terça e nas reuniões da FERA? Como acolher mais e melhor?
Uma primeira questão é entender que nem todo espaço precisa ser espaço de disputa permanente. Precisamos nos perguntar se é necessário debater tudo, o tempo todo, em todos os lugares. Uma comunidade, um chat, um encontro de formação, uma reunião organizativa e uma instância de decisão possuem funções diferentes. Quando transformamos qualquer espaço em uma arena permanente de disputa, corremos o risco de afastar justamente as pessoas que mais precisamos aproximar. Isso não significa fugir dos conflitos ou evitar debates difíceis. Significa compreender que o conflito também precisa de lugar, forma e momento.
Essa questão tende a se tornar ainda mais importante conforme nossos espaços crescerem. Se hoje, em uma comunidade ampla de esquerda, já existem debates intermináveis e, por vezes, agressivos, com discussões que atingem altas temperaturas e até situações de pessoalização da crítica, precisamos imaginar o que acontecerá quando novos acontecimentos políticos ampliarem enormemente a entrada de pessoas no chat, na comunidade, nos Encontros de Terça e na própria FERA. Precisamos nos preparar para receber pessoas que chegam com diferentes experiências, referências, posições e níveis de consciência política.
Isso será particularmente importante diante da chegada de pessoas vindas de campos políticos distintos. Pessoas que hoje se identificam como bolsonaristas, petistas, lulistas ou simplesmente como pessoas sem identificação política clara podem, diante das transformações da conjuntura, entrar em crise com suas antigas referências. Não devemos imaginar que todas essas pessoas serão nossas aliadas, muito menos que todas serão camaradas. Mas também não podemos partir do princípio de que são inimigos antes mesmo de conhecê-las.
Existe uma disputa concreta pela consciência dessas pessoas. Se a esquerda radical não for capaz de acolher, escutar e estabelecer relações com aqueles que entram em crise com suas antigas posições, o fascismo estará disposto a fazê-lo. E já existem diferentes vertentes do neofascismo brasileiro disputando essas pessoas, especialmente setores da juventude. O bolsonarismo é apenas uma de suas expressões.
Por isso, acolhimento também é disputa política e processo de conscientização de classe. Não podemos reproduzir o erro de tratar a população como ignorante, como “burra” ou como simplesmente “pobre de direita”, imaginando que nossa tarefa é levar uma palavra iluminada para aqueles que ainda não compreenderam a realidade. Essa postura transforma a política em uma relação entre quem supostamente sabe e quem supostamente precisa ser salvo.
Precisamos de outra prática: escuta ativa, contato individual, diálogo e construção de confiança. Muitas vezes, em vez de oferecer imediatamente uma resposta pronta, o mais político pode ser fazer uma pergunta. Uma pergunta que obrigue a pessoa a pensar, investigar suas próprias posições, justificar aquilo que acredita ou perceber uma contradição que até então não havia considerado. Às vezes, o resultado mais importante de uma conversa não é a pessoa concordar conosco, mas sair dela com uma pergunta que continuará trabalhando em sua cabeça.
Isso também exige reconhecer que a conscientização não é um processo que acontece apenas “no outro”. Nós mesmos passamos e continuamos passando por esse processo. Nossa consciência política não nasceu pronta. É resultado de experiências, encontros, contradições, estudos, derrotas, vitórias, relações e mudanças. Se reconhecemos em nós mesmos esse processo permanente de transformação, precisamos ser capazes de reconhecê-lo também nos outros.
Uma nova individualidade só pode nascer quando o individualismo começar a morrer. E uma sociabilidade não é simplesmente substituída por uma ideia: ela precisa ser substituída por outra sociabilidade. Nesse sentido, nossos espaços não devem apenas falar sobre uma sociedade diferente; precisam, dentro dos seus limites, experimentar formas diferentes de relação entre as pessoas.
É nesse ponto que a experiência dos Encontros de Terça e da própria FERA se torna importante. O acolhimento não deve ser entendido como mera cordialidade ou como uma técnica para aumentar o número de participantes. Ele é parte da construção de uma cultura política. Queremos espaços onde seja possível discordar sem transformar imediatamente a divergência em hostilidade; onde seja possível fazer perguntas sem medo de parecer ignorante; onde uma pessoa recém-chegada possa observar antes de falar; onde críticas possam ser feitas sem se transformar em ataques pessoais; e onde a firmeza política não seja confundida com agressividade.
Endurecer sem perder a ternura.
Também precisamos recuperar o sentido da palavra que usamos para nos chamar: camarada. Não como uma etiqueta ou uma identidade que distribuímos automaticamente a qualquer pessoa que se aproxime, mas como uma relação que precisa ser construída. Começamos a ler Jodi Dean e a discutir o que significa ser camarada justamente porque essa palavra carrega uma concepção de relação política: não somos apenas indivíduos que eventualmente concordam sobre determinadas ideias; estamos tentando construir uma forma de organização e de vida política baseada em relações de compromisso, responsabilidade e construção coletiva.
Ao mesmo tempo, precisamos evitar uma visão ingênua do acolhimento. Nem todo mundo será camarada — e tudo bem. Uma revolução não será feita somente por comunistas. Ela precisará envolver muito mais gente, com diferentes níveis de consciência, diferentes experiências e diferentes posições políticas. A tarefa de uma organização revolucionária não pode ser exigir que todas as pessoas se tornem comunistas antes que possam participar da transformação social.
Mas isso não significa que todos sejam aliados. Existem adversários, existem inimigos, existem aqueles que conscientemente atuam contra a classe trabalhadora e existem situações em que determinadas posições e práticas não podem ser naturalizadas. Precisamos aprender a distinguir essas situações, identificar, categorizar e compreender as diferentes posições e relações que encontramos. Acolher não significa abandonar critérios políticos; ternura não significa ingenuidade.
A questão, portanto, não é escolher entre acolhimento e firmeza. É aprender a combinar os dois. Saber quando escutar, quando perguntar, quando argumentar, quando formar, quando organizar, quando estabelecer limites e, também, quando deixar de insistir em uma relação que não tem possibilidade de construção.
Precisamos construir espaços nos quais as pessoas possam entrar, permanecer, questionar, aprender, discordar, mudar e, eventualmente, se organizar conosco. Acolher é abrir uma porta; politizar é construir uma relação; organizar é transformar essa relação em força coletiva.



