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Coluna · Coletivo FERA

Parte 1/3Apoio crítico: uma carta aberta à Bancada da Esquerda Radical

Introdução e crítica à análise de conjuntura

Por que escrevemos, o que entendemos por apoio crítico e onde o diagnóstico da Bancada acerta e onde fica incompleto: os gestores do neoliberalismo, a economia vivida no cotidiano e a história colonial do Brasil.

Coletivo FERA · 2 de setembro de 2026

Parte 1 de 3 — Introdução e crítica à análise de conjuntura. Série: Apoio crítico: uma carta aberta à Bancada da Esquerda Radical.
Por um diagnóstico mais preciso, uma comunicação mais popular e uma estratégia revolucionária enraizada na realidade brasileira.

Introdução

À Bancada da Esquerda Radical,

Recebam nossa saudação fraterna.

Antes de qualquer consideração crítica, queremos reconhecer a importância da iniciativa de tornar pública uma reflexão sobre a conjuntura política brasileira e os desafios colocados para a esquerda combativa. Em um período marcado por derrotas, fragmentação organizativa e crescente ofensiva da extrema direita, consideramos um gesto político relevante abrir ao debate público uma análise estratégica e submetê-la ao escrutínio da militância.

Escrevemos esta carta em nome da Frente da Esquerda Revolucionária (FERA) e de seus signatários. Ela não nasce da intenção de polemizar por polemizar, nem da pretensão de oferecer respostas acabadas para problemas complexos. Surge, ao contrário, de um exercício coletivo de estudo, debate e elaboração política realizado entre militantes e não-militantes de todo o Brasil (e até mesmo fora), de diversas idades, tradições/visões político-econômicas. Indivíduos da classe trabalhadora de diversas raças, etnias, gêneros, sexualidades, religiosidades e espiritualidades.

Quando o documento foi publicado, diversas organizações, coletivos e analistas apresentaram rapidamente suas avaliações. Nós optamos por um caminho diferente. Preferimos deixar a poeira baixar, acompanhar as primeiras repercussões, ouvir outras interpretações, aprofundar nossa própria leitura e construir coletivamente uma posição. Entendemos que a elaboração política ganha qualidade quando não é guiada apenas pela urgência da resposta, mas pela disposição de ouvir, refletir e amadurecer os argumentos.

É justamente desse processo que nasce esta carta.

Nossa posição: um apoio crítico

Nossa intenção não é enfraquecer a Bancada da Esquerda Radical, muito menos estabelecer uma disputa estéril entre organizações que compartilham, em grande medida, um horizonte comum de transformação social.

Pelo contrário.

Acreditamos que a esquerda brasileira necessita, mais do que nunca, recuperar a capacidade de produzir diagnósticos rigorosos, formular estratégias consistentes e dialogar com amplos setores da classe trabalhadora. Esse processo exige coragem para formular críticas públicas, mas também maturidade para recebê-las como parte da construção coletiva.

É nesse espírito que escrevemos.

Reconhecemos a importância da Bancada da Esquerda Radical como uma das expressões mais relevantes da reorganização da esquerda brasileira nos últimos anos. Saudamos sua disposição em intervir no debate estratégico e consideramos que documentos como o recentemente publicado cumprem um papel importante ao estimular uma reflexão que ultrapassa os limites das próprias organizações que a compõem.

Nosso objetivo, portanto, não é negar esse esforço, mas contribuir para seu aprofundamento.

Nossa crítica é fraterna porque parte do reconhecimento de que estamos inseridos no mesmo campo político e enfrentamos adversários muito maiores do que nossas divergências internas.

É justamente por compartilhar esse horizonte que consideramos necessário apontar aquilo que, em nossa avaliação, limita a força política do diagnóstico apresentado e, consequentemente, a estratégia que dele decorre.

Nossa própria autocrítica

Seria incoerente exigir abertura ao debate sem praticá-la entre nós mesmos.

Esta carta também é resultado de um intenso processo de divergências internas. As leituras sobre o documento não foram uniformes, tampouco nossas interpretações sobre a conjuntura brasileira coincidem em todos os aspectos. Houve discordâncias sobre prioridades, formulações e até sobre o tom que esta intervenção deveria assumir.

Essas diferenças não foram ocultadas. Pelo contrário: constituíram parte fundamental do processo de elaboração que culmina neste texto.

As posições aqui apresentadas representam os consensos que fomos capazes de construir até este momento. São, portanto, sínteses provisórias, abertas à revisão e ao aprofundamento.

Nosso debate interno permanece vivo, porque entendemos que nenhuma organização revolucionária deve confundir unidade política com unanimidade permanente.

Assumimos essa condição não como uma fragilidade, mas como uma demonstração de que a elaboração coletiva exige tempo, escuta e disposição para revisar as próprias convicções.

Esperamos da esquerda a mesma abertura que buscamos cultivar em nossa própria prática.

O momento político exige mais do que diagnósticos corretos

Vivemos um período particularmente complexo da história brasileira.

A extrema direita consolidou uma presença social e cultural que não desapareceu com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro. O capitalismo, na sua fase neoliberal, atravessa uma crise prolongada de legitimidade, mas continua estruturando a economia e limitando o horizonte das políticas públicas. O lulismo, embora ainda desempenhe um papel decisivo na contenção do avanço reacionário, demonstra sinais evidentes de esgotamento enquanto estratégia capaz de reorganizar politicamente a classe trabalhadora e produzir uma alternativa histórica ao capitalismo brasileiro.

Ao mesmo tempo, a esquerda enfrenta dificuldades para reconstruir sua inserção popular, reorganizar sua base social e formular um projeto que dialogue com as transformações ocorridas no mundo do trabalho, na cultura e nas formas contemporâneas de organização política.

É justamente por isso que o debate estratégico deixou de ser uma tarefa restrita às direções partidárias ou aos espaços acadêmicos. Ele tornou-se uma necessidade urgente para todas as organizações comprometidas com a reconstrução de uma alternativa socialista de massas.

É nesse contexto que situamos nossa leitura crítica do documento da Bancada da Esquerda Radical.

Por que escrevemos esta carta: apoio crítico, autocrítica e construção coletiva

As reflexões apresentadas nesta carta partem de uma compreensão simples, mas fundamental: organizações comprometidas com um mesmo horizonte histórico possuem não apenas o direito, mas também a responsabilidade de realizar críticas, propor caminhos e contribuir mutuamente para seu desenvolvimento político.

É a partir dessa perspectiva que utilizamos o conceito de apoio crítico.

Ao longo dos últimos anos, essa expressão muitas vezes foi esvaziada, transformando-se em uma fórmula diplomática utilizada para evitar conflitos ou suavizar divergências. Não é esse o sentido que damos a ela.

Uma crítica que apenas denuncia pouco contribui para transformar a realidade. Da mesma forma, um apoio que evita apontar problemas em nome de uma unidade abstrata acaba impedindo que erros sejam reconhecidos e superados.

Entre esses dois extremos existe uma terceira possibilidade: a construção fraterna, onde divergências são apresentadas não para enfraquecer uma organização, mas para fortalecê-la.

É nesse espírito que escrevemos esta carta à Bancada da Esquerda Radical.

Reconhecemos a importância do esforço político realizado, especialmente em um período marcado pela ascensão da extrema direita, pela crise do neoliberalismo e pela necessidade urgente de reorganização da esquerda radical brasileira. Nosso objetivo não é deslegitimar essa construção, mas contribuir para que ela avance, amplie sua capacidade de diálogo com a classe trabalhadora e fortaleça sua inserção na realidade concreta do povo brasileiro.

Portanto, esta carta não pretende oferecer respostas definitivas nem apresentar uma formulação acabada. Ela nasce de um processo coletivo de debate entre militantes - organizados e independentes - e não militantes, construído a partir da leitura do documento apresentado pela Bancada da Esquerda Radical e das reflexões realizadas posteriormente.

Sabemos que a própria esquerda radical precisa exercitar aquilo que defende: a capacidade de ouvir, revisar posições, incorporar críticas e construir coletivamente.

Por isso, esperamos que esta carta seja recebida exatamente com o espírito em que foi escrita: como uma contribuição fraterna, honesta e comprometida com um objetivo comum — fortalecer a esquerda radical, qualificar o debate estratégico e ampliar nossa capacidade coletiva de transformar a realidade brasileira.

Capítulo 1

Crítica à análise de conjuntura

Um diagnóstico correto, porém incompleto: entre acertos e limites

Antes de apresentar nossas divergências, julgamos importante reconhecer aquilo que entendemos como um dos principais méritos do documento: a centralidade atribuída ao capitalismo em sua fase neoliberal como elemento estruturante da conjuntura brasileira.

Compartilhamos a compreensão de que o neoliberalismo não pode ser reduzido a um conjunto de medidas econômicas ou a um programa de governo. Trata-se de uma racionalidade política que reorganiza o Estado, redefine as relações de trabalho, enfraquece direitos sociais, transfere patrimônio público para interesses privados e aprofunda a concentração de riqueza e poder. Seus efeitos ultrapassam governos específicos e moldam a própria forma como a sociedade passa a compreender o papel do Estado, da economia e da democracia.

Também concordamos que o neoliberalismo brasileiro deve ser entendido como parte de uma dinâmica internacional de acumulação capitalista, marcada pela relação desigual entre países centrais e periféricos e pela subordinação econômica das nações do Sul Global. Nesse sentido, a identificação do neoliberalismo como eixo estruturante permite superar interpretações que o reduzem a uma simples orientação ideológica de determinados governos ou a um conjunto específico de políticas econômicas. Ao contrário, trata-se de uma forma de organização do capitalismo contemporâneo, inserida em uma dinâmica internacional que condiciona as economias periféricas e limita suas possibilidades de desenvolvimento soberano.

Ao longo das discussões realizadas em nossa organização, houve, portanto, amplo consenso de que a escolha do neoliberalismo como eixo central da análise representa um acerto político importante. O documento evidencia que, independentemente das alternâncias eleitorais, a manutenção de políticas neoliberais produz efeitos recorrentes: privatizações, redução dos investimentos públicos, precarização dos serviços essenciais, restrição da capacidade de planejamento estatal e ampliação da influência do mercado sobre áreas fundamentais da vida social.

Nossa crítica, portanto, não recai sobre a centralidade atribuída ao neoliberalismo, mas sobre a forma como essa centralidade é desenvolvida ao longo do documento. Em nossa avaliação, o diagnóstico responde satisfatoriamente à pergunta sobre qual é o modelo em disputa, mas deixa em aberto questões igualmente fundamentais: quem administra esse modelo? Como ele é percebido pela população? Quais forças sociais sustentam sua reprodução? E por que o neoliberalismo assume características tão particulares na realidade brasileira?

É nesse sentido que consideramos o diagnóstico apresentado correto em seus fundamentos, mas ainda incompleto. Identificar a estrutura neoliberal é fundamental, mas, para compreender concretamente a conjuntura brasileira e as possibilidades de transformação, é necessário avançar também sobre os sujeitos que operam essa estrutura, as formas políticas pelas quais ela se reproduz e a maneira como suas contradições são vivenciadas e interpretadas pela população.

É sobre esses limites que se concentram as observações a seguir.

O diagnóstico político precisa identificar seus responsáveis

Foi justamente neste ponto que se concentrou uma das discussões mais intensas de nosso debate coletivo.

Em nossa avaliação, o documento identifica corretamente o sistema, mas evita identificar, com a mesma clareza, os sujeitos políticos responsáveis por administrá-lo.

Categorias como "burguesia", "capital financeiro" e "neoliberalismo" possuem importante valor analítico, mas tornam-se insuficientes quando não são acompanhadas da identificação das forças políticas, governos, instituições e frações de classe que concretizam esse projeto na realidade brasileira.

Nenhum sistema governa sozinho.

Todo projeto econômico necessita de gestores políticos. São eles que transformam interesses de classe em políticas públicas, reformas constitucionais, programas econômicos, privatizações, benefícios fiscais e mecanismos permanentes de reprodução do capital. Da mesma forma, nenhuma crítica ao neoliberalismo se completa enquanto não explicita quem são seus administradores concretos e quais escolhas políticas permitem sua continuidade.

Nossa preocupação não decorre de um desejo de personalizar problemas estruturais. Ao contrário. É justamente o materialismo histórico-dialético que nos impõe a obrigação de compreender que as estruturas econômicas não existem separadas da ação humana. Elas são produzidas, reproduzidas e disputadas por sujeitos históricos concretos.

Por isso, temos também uma responsabilidade ética e militante: nomear aqueles que, em diferentes momentos históricos, implementaram, administraram, aprofundaram ou preservaram o projeto neoliberal brasileiro.

Sua primeira tentativa sistemática de implantação ocorreu durante o governo Fernando Collor de Mello, inspirado pelas experiências de Ronald Reagan e Margaret Thatcher que, desde os países centrais do capitalismo, difundiam a agenda neoliberal pelo mundo. O impeachment de Collor interrompeu esse primeiro ciclo, mas não interrompeu o projeto das burguesias, nacional e internacional.

Foi durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso que o neoliberalismo encontrou sua consolidação institucional. Privatizações, reformas administrativas, abertura econômica, fortalecimento da lógica financeira e redefinição do papel do Estado constituíram os pilares de um novo modelo de desenvolvimento. Não por acaso, durante muitos anos, esse período foi corretamente identificado pelo próprio campo lulopetista como a chamada "herança maldita".

Entretanto, esse diagnóstico exige um passo seguinte.

A chegada do Partido dos Trabalhadores ao governo federal inaugurou um novo ciclo político que produziu avanços inegáveis para amplos setores da classe trabalhadora. A valorização do salário mínimo, a ampliação das políticas de transferência de renda, a expansão das universidades e institutos federais, o fortalecimento de programas sociais e outras iniciativas transformaram concretamente a vida de milhões de brasileiras e brasileiros, sobretudo dos segmentos historicamente mais empobrecidos.

Reconhecer esses avanços não representa uma concessão política; representa apenas o compromisso com uma análise objetiva da realidade. Ao mesmo tempo, porém, também precisamos reconhecer seus limites estruturais.

Durante aproximadamente quatorze anos de governos liderados pelo lulopetismo, os fundamentos centrais do modelo neoliberal não foram superados. O regime macroeconômico herdado dos anos 1990 permaneceu praticamente intacto, o protagonismo do sistema financeiro foi preservado e diferentes frações da burguesia continuaram acumulando lucros extraordinários. Tornou-se comum, inclusive, a repetição anual de manchetes informando que os bancos registravam sucessivos recordes de lucratividade enquanto o endividamento das famílias brasileiras crescia continuamente.

Grande parte das políticas sociais implementadas nesse período foi viabilizada por um contexto internacional extremamente favorável, impulsionado pelo chamado boom das commodities, que ampliou significativamente a arrecadação do Estado brasileiro. Isso não diminui sua importância social, mas exige reconhecer que elas ocorreram sem alterar as estruturas fundamentais de acumulação do capital e permaneceram vulneráveis às mudanças posteriores da correlação de forças políticas.

As políticas públicas melhoraram a vida da população, mas não alteraram as bases estruturais que produzem desigualdade. Por essa razão, mostraram-se também mais facilmente desmontáveis quando governos comprometidos com outra agenda assumiram o poder.

Os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro representaram uma nova etapa desse processo. Se anteriormente o neoliberalismo havia sido administrado com maior capacidade distributiva, nesse período ele passou a ser aprofundado de maneira mais explícita e agressiva contra a classe trabalhadora.

A Emenda Constitucional do Teto de Gastos tornou-se um dos maiores símbolos dessa ofensiva ao constitucionalizar a austeridade permanente e restringir, por décadas, a capacidade de investimento do Estado brasileiro. Posteriormente, durante a pandemia de Covid-19, essas limitações fiscais também contribuíram para restringir a resposta estatal diante de uma das maiores tragédias sanitárias da história nacional, agravando um cenário já marcado pelo negacionismo e pela condução criminosa do governo Bolsonaro.

Chegamos, então, ao atual governo.

Organizado como uma ampla coalizão política, o governo Lula III reafirma importantes compromissos democráticos e promove políticas públicas relevantes para reduzir parte dos impactos sociais produzidos pelo neoliberalismo. Entretanto, ao preservar os principais fundamentos da política econômica construída nas últimas décadas, acaba também reproduzindo seus limites estruturais.

Essa constatação nos leva a outro ponto importante.

Nomear os gestores políticos do neoliberalismo é apenas parte da tarefa. Também precisamos nomear quem efetivamente se beneficia de sua continuidade.

Quando falamos em burguesia, não estamos nos referindo a uma entidade abstrata ou a um grupo homogêneo. Existem diferentes frações burguesas, frequentemente em disputa entre si, mas que convergem na defesa da manutenção das condições gerais de acumulação do capital.

No Brasil, destacam-se, entre outras, a burguesia do agronegócio, da mineração, do sistema financeiro, da saúde privada, da educação privada e dos grandes grupos de infraestrutura e comunicação, do comércio e também das big techs. A elas se articulam interesses de capitais internacionais, especialmente norte-americanos, europeus e, mais recentemente, chineses, todos disputando posições na economia brasileira.

Uma análise materialista da conjuntura precisa identificar essas relações concretas entre Estado, capital e representação política. Caso contrário, corre o risco de transformar categorias como "burguesia" e "neoliberalismo" em conceitos excessivamente abstratos, incapazes de orientar a ação política.

Isso nos conduz à pergunta estratégica que, em nossa avaliação, deveria orientar toda análise de conjuntura produzida pela esquerda socialista: quem são, hoje, os sujeitos políticos — institucionais e não institucionais, parlamentares e extraparlamentares — efetivamente comprometidos com a transformação estrutural da vida da classe trabalhadora brasileira?

Responder a essa pergunta exige ir além da polarização eleitoral. Exige compreender quais interesses de classe cada projeto político representa, quais estruturas busca preservar e quais está realmente disposto a transformar.

A economia como experiência cotidiana

Outro aspecto recorrente em nosso debate diz respeito ao ponto de partida adotado pelo documento.

Em diversos momentos, a análise parte de categorias teóricas já consolidadas para, posteriormente, relacioná-las à realidade vivida pela população. Consideramos, porém, que esse caminho poderia ser invertido. Para uma análise de conjuntura voltada à organização popular, entendemos ser mais adequado partir das condições concretas de vida da classe trabalhadora para, a partir delas, identificar e explicar os mecanismos econômicos, políticos e sociais que as produzem.

É nessa experiência cotidiana que as escolhas econômicas e políticas se tornam perceptíveis. A precarização do trabalho, a redução da capacidade do Estado, a mercantilização de direitos e a transferência de recursos públicos para interesses privados não aparecem, para a maioria das pessoas, como categorias abstratas, mas como condições concretas que afetam diretamente suas vidas.

Por isso, entendemos que uma análise de conjuntura voltada à organização popular ganha força quando parte dessas experiências concretas e, a partir delas, constrói as mediações necessárias para compreender as estruturas e relações sociais que as determinam. O desafio não é substituir a análise teórica pela experiência cotidiana, mas estabelecer entre ambas uma relação em que a teoria permita interpretar a realidade e a realidade concreta oriente a construção da análise.

Essa mudança de ponto de partida não significa simplificar o diagnóstico ou abandonar categorias teóricas mais complexas. Ao contrário, significa torná-las mais acessíveis, pedagógicas e politicamente úteis, conectando-as às contradições efetivamente vividas pela classe trabalhadora.

Nesse sentido, consideramos que uma perspectiva materialista deve partir das condições concretas de existência para compreender as relações econômicas, políticas e sociais que estruturam a realidade. É justamente esse movimento — da experiência concreta à compreensão de suas determinações — que pode tornar a análise mais capaz de produzir consciência, organizar experiências dispersas e transformar problemas individuais em questões políticas e coletivas.

É justamente nesse ponto que identificamos um limite importante do documento.

Quando a análise começa e termina em categorias excessivamente abstratas, ela corre o risco de revelar uma desconexão com a base social que pretende organizar. Não porque seus conceitos estejam necessariamente errados, mas porque deixam de dialogar com a forma como a classe trabalhadora experimenta concretamente a exploração, a opressão e a crise.

Isso nos leva a uma pergunta estratégica: com quem estamos conseguindo dialogar?

Qual parcela da classe trabalhadora é efetivamente alcançada por uma linguagem que parte de categorias altamente especializadas? De onde parte nossa elaboração política e para onde ela aponta, concretamente?

Essas perguntas não dizem respeito apenas à comunicação. Dizem respeito ao próprio método de análise.

Uma análise verdadeiramente radical não é apenas aquela que busca a raiz dos problemas. Ela também precisa "alimentar-se da terra", isto é, nascer da realidade concreta, retornar constantemente a ela e permitir que a própria experiência da classe trabalhadora transforme nossas categorias de interpretação. Sem esse movimento permanente entre teoria e prática, corre-se o risco de produzir análises corretas em seus conceitos, mas insuficientes para organizar sujeitos políticos reais.

Nesse sentido, identificamos um problema que ultrapassa o documento em debate e atravessa boa parte da esquerda brasileira. Ainda hoje, muitas organizações que se propõem a representar a classe trabalhadora têm sua elaboração política concentrada em setores sociais relativamente homogêneos: predominantemente homens, pessoas brancas, cisgênero, oriundas dos grandes centros urbanos, com formação universitária e pertencentes às camadas médias da sociedade.

Essa constatação não pretende deslegitimar a atuação desses militantes nem reduzir a política à identidade de quem fala. O problema não é individual, mas estrutural. Quando os espaços de formulação política permanecem socialmente restritos, existe uma tendência objetiva de que determinadas experiências da classe trabalhadora apareçam menos, enquanto outras se tornam referência quase exclusiva para a elaboração estratégica.

Uma esquerda comprometida com a transformação radical da sociedade precisa enfrentar também esse desafio. Isso significa ampliar quem participa da formulação política, construir organizações verdadeiramente enraizadas nos territórios populares e permitir que a realidade vivida pelas maiorias trabalhadoras deixe de ser apenas objeto da análise para tornar-se seu ponto de partida permanente.

Em nossa avaliação, é desse enraizamento que nasce uma estratégia socialista capaz de compreender o país como ele é — e, justamente por isso, transformá-lo.

O neoliberalismo brasileiro possui uma história

Também surgiu em nosso debate uma questão que, a nosso ver, mereceria maior desenvolvimento no documento: a relação entre o neoliberalismo contemporâneo e a formação histórica do Brasil.

Nossa compreensão é que o neoliberalismo brasileiro não pode ser analisado como um fenômeno desligado das estruturas construídas ao longo de nossa história colonial.

Mais do que coexistirem, colonialismo e neoliberalismo articulam-se. O primeiro forneceu as bases materiais e políticas da formação social brasileira; o segundo reorganizou essas mesmas estruturas para atender às novas formas de acumulação do capitalismo contemporâneo. Em um país de dimensões continentais e profundas desigualdades regionais, essas temporalidades convivem e se sobrepõem.

Em algumas regiões, permanecem formas de poder político que remontam ao coronelismo e às antigas estruturas oligárquicas originadas nas capitanias hereditárias. Em outras, o avanço do agronegócio, da mineração e dos grandes projetos de infraestrutura continua promovendo a expulsão violenta de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades camponesas de seus territórios. Mudam os instrumentos jurídicos e econômicos; permanecem, muitas vezes, as mesmas relações de dominação.

O trabalho escravo foi formalmente abolido, mas continua existindo sob formas contemporâneas, hoje reconhecidas como trabalho análogo à escravidão. Ao mesmo tempo, milhões de trabalhadores vivem submetidos a relações permanentes de endividamento, informalidade e extrema precarização, revelando que diferentes formas históricas de exploração podem coexistir dentro do mesmo sistema econômico.

Também nas cidades observamos permanências coloniais profundas.

A violência estatal distribui-se de maneira profundamente desigual. O encarceramento em massa, a letalidade policial e a criminalização da pobreza atingem de forma desproporcional a população negra e periférica. Não se trata de uma falha ocasional da democracia brasileira, mas da continuidade de um projeto histórico de controle social que atravessa diferentes períodos de nossa formação nacional. No Brasil, a bala raramente é perdida; ela quase sempre encontra os mesmos corpos.

Essa leitura também permite compreender a extrema direita para além de analogias simplificadas com o fascismo europeu.

Os processos de fascistização observados no Brasil não surgem sobre uma sociedade democrática plenamente consolidada. Eles encontram terreno fértil em estruturas autoritárias muito anteriores ao século XX: no colonialismo, no racismo estrutural, no patriarcado, no latifúndio, na violência policial e na histórica exclusão política das maiorias populares.

Enquanto isso, parcela significativa das camadas médias urbanas continua limitada ao horizonte político da democracia liberal e do consumo como principal promessa de ascensão social. Alternam-se governos, discursos e lideranças, mas permanece relativamente estreito o espaço destinado ao debate sobre transformações estruturais da sociedade brasileira.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que projetos autoritários conseguem, ciclicamente, reorganizar parcelas importantes da sociedade. Em diferentes momentos históricos, assumem formas distintas — ora associadas ao integralismo, ora às ditaduras militares, ora a novas expressões da extrema direita contemporânea —, mas conservam um mesmo objetivo: preservar a ordem social quando os mecanismos tradicionais de hegemonia entram em crise.

Por essa razão, entendemos que uma análise verdadeiramente radical da conjuntura brasileira não pode limitar-se à crítica do neoliberalismo. Ela precisa compreender como o capitalismo dependente brasileiro se alimenta de estruturas coloniais nunca plenamente superadas e como essas permanências moldam tanto a economia quanto a política, a cultura e as formas de violência presentes em nossa sociedade.

Somente a partir dessa perspectiva histórica torna-se possível compreender por que determinadas formas de exploração persistem por séculos, adaptando-se às mudanças do capitalismo sem jamais romper completamente com suas origens coloniais.

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