Parte 01
Quem somos
§1A FERA é coletivo político-social digital brasileiro, organizando a transformação da realidade a partir da articulação entre formação crítica, comunicação, cultura e ação concreta. Visa construir espaços de organização capazes de interpretar as contradições do presente, disputar consciências e fortalecer formas de atuação na sociedade brasileira.
a) É político porque compreende que toda produção cultural, comunicacional e organizativa está inserida em disputas de poder. A FERA intervém na realidade concreta, contribuindo para a organização popular, para a formação crítica e para a transformação das estruturas que produzem exploração, desigualdade e alienação.
b) É social porque parte da vida real das pessoas ; especialmente da classe trabalhadora ;, de nossas necessidades, experiências, memórias, afetos e formas de sobrevivência. A construção política ocorre nas relações humanas, nos territórios, no trabalho, na cultura e no cotidiano, e não de maneira abstrata.
c) É digital porque reconhece o ambiente virtual como espaço central das disputas contemporâneas. As redes digitais são extensão das relações sociais, econômicas e políticas do mundo concreto, e não uma realidade paralela. Por isso, a FERA utiliza a comunicação digital como instrumento de formação, mobilização, articulação e produção cultural, combinando práticas materiais e presenciais às telas.
§2Essa construção se dá a partir da pluralidade. A diversidade é força constitutiva do processo coletivo, capaz de ampliar a leitura da realidade e enriquecer as formas de organização, ação e produção política. A unidade surge da construção de objetivos comuns enraizados nas contradições concretas da sociedade brasileira.
- A FERA reúne pessoas vinculadas a diferentes tradições teóricas e estratégicas da esquerda, como marxistas-leninistas, maoistas, ecossocialistas e outras correntes de interpretação e transformação da realidade social.
- Reúne sujeitos identificados com campos políticos mais amplos ; como comunistas, socialistas, anarquistas, trabalhistas e progressistas ;, compreendendo que a construção coletiva ultrapassa delimitações rígidas e se fortalece na articulação entre diferentes experiências de luta.
- Organiza aqueles que, mesmo sem formação política sistematizada ou filiação teórica definida, percebem na ação coletiva uma necessidade concreta diante das contradições do cotidiano.
§3Une sujeitos distintos em torno da necessidade comum de transformação da realidade, criando espaços compartilhados de formação, diálogo e prática, sem exigir uniformidade de pensamento como condição para participação.
§4A FERA é composta majoritariamente por pessoas sem experiência político-organizativa prévia. A formação é compreendida não apenas em caráter teórico, mas também prático, coletivo, contínuo e inseparável da ação concreta e da experiência organizativa.
- A FERA não veta a participação de trabalhadores e militantes já organizados em outros espaços, desde que compreendam tanto seus limites individuais quanto os limites e necessidades do coletivo, com disponibilidade real de dedicação e atuação em consonância com seus princípios.
- Valoriza a crítica, o debate e a diversidade de pensamento como partes constitutivas do coletivo. Contudo, divergências não podem assumir caráter inconciliável que inviabilize, fragilize ou paralise a prática organizativa.
§5 · Antipatriarcal e anti-LGBTfóbica.Orienta-se pelo enfrentamento ao patriarcado, ao sexismo e à LGBTfobia como estruturas históricas de opressão. Compromete-se com práticas antissexistas e anti-LGBTfóbicas, com espaços seguros e com a centralidade das lutas das mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e dissidências de gênero e sexualidade.
§6 · Antirracista.Reconhece o racismo como elemento estruturante da formação social brasileira e do desenvolvimento do capitalismo, articulado à escravização, à colonialidade e à exploração econômica. Compromete-se com práticas antirracistas, valorizando as lutas dos povos racializados.
§7 · Anticapitalista e ecossocialista.Compreende o capitalismo como sistema baseado na exploração do trabalho, na concentração de riqueza e na destruição das condições materiais da vida. Afirma o ecossocialismo como horizonte político-estratégico, por uma sociedade baseada na justiça social, na sustentabilidade e em novas relações entre sociedade, trabalho e natureza.
§8 · Anti-imperialista.Opõe-se ao imperialismo em suas múltiplas expressões ; econômicas, políticas, militares e culturais. Defende a autodeterminação dos povos, a soberania popular e a solidariedade internacionalista.
§9 · Anticapacitista e antietarista.Reconhece que o capacitismo e o etarismo produzem exclusão, invisibilização e precarização da vida. Compromete-se com práticas inclusivas, acessíveis e intergeracionais, defendendo a dignidade, autonomia e participação efetiva de pessoas com deficiência, crianças e idosas.
§10 · Brasilidades e integração latino-americana.Não existe uma única forma de ser brasileir@. Rejeita visões homogêneas de identidade nacional e busca articular as diferentes brasilidades. Compreende o Brasil como parte da América Latina e afirma a solidariedade entre os povos do continente como elemento de projetos comuns de emancipação.
Parte 02
De onde viemos
Origem: mapa do mal-estar político e social
§1 · Desigualdade estrutural.A desigualdade social no Brasil não é acidental, mas resultado de histórico desvio de renda e poder. Amplos setores não garantem condições básicas de existência ; alimentação, água, moradia, energia e acesso à internet. A insegurança alimentar permanece alarmante.
§2 · Crise do trabalho.O mundo do trabalho atravessa crise profunda, marcada pelo desemprego, subemprego e formas precarizadas como pejotização, uberização e plataformização. O trabalho deixa de ser meio de realização e dignidade, tornando-se mecanismo de sobrevivência instável.
§3 · Tempo, vida e alienação.A falta de tempo não é circunstancial, mas estrutural. A vida da classe trabalhadora é reduzida à sobrevivência, limitando o acesso ao lazer, à cultura e à arte, produzindo alienação e apatia social.
§4 · Despolitização.A desvalorização do trabalhador retroalimenta a despolitização. Há uma ruptura entre as organizações políticas e as demandas da classe trabalhadora, alimentando abandono e desconfiança.
§5 · Crise da representação.As formas tradicionais de representação atravessam crise de legitimidade. Burocratização, conciliação e adaptação à lógica institucional esvaziam o potencial transformador da política.
§6 · Juventude e futuro.A juventude trabalhadora enfrenta falta de perspectivas e bloqueio de acesso a trabalho, renda e participação política, aprofundando frustração e desencaixe social.
§7 · Hipocrisia política e moral.Discursos progressistas frequentemente se dissociam da prática concreta. A instrumentalização de pautas e a empatia seletiva revelam limites éticos e políticos das formas dominantes de atuação.
§8 · Soberania e serviços essenciais.A lógica da propriedade privada se impõe sobre serviços essenciais, subordinando necessidades sociais ao lucro e aprofundando desigualdades.
§9 · Necessidade de ruptura.A superação dessas contradições exige mais do que reformas pontuais: demanda um projeto de transformação estrutural. A radicalidade se prova necessidade histórica.
Histórico: nascer organizado para crescer organizado
A FERA nasce do cansaço, da indignação e da necessidade coletiva daqueles que vivem do próprio trabalho. Surge da compreensão de que a precarização da vida, a insegurança, o desgaste físico e mental, a perda de perspectivas e o isolamento social são consequências de estruturas históricas de exploração ; não problemas individuais.
Seu ponto de partida ocorre de forma difusa, no chat do canal de YouTube do Jones Manoel, o Farol Brasil. Interações pontuais entre frequentadores transformam-se em vínculo político e humano, levando à criação de um grupo de WhatsApp e à realização de encontros virtuais regulares ; espaços fundamentais para consolidar relações e transformar afinidades em início de organização.
Um momento decisivo ocorre durante uma entrevista no Farol Brasil com Milton Temer, em que se discutia a construção de uma frente de esquerda radical. O debate aponta a necessidade de articulação mais ampla, com base social, formativa e organizativa. É nesse contexto que surge o nome FERA ; Frente da Esquerda RAdical.
Os encontros de terça-feira assumem caráter formativo e estruturante. A construção é marcada por tentativas, erros, ajustes, conflitos e aprendizados, consolidando uma cultura interna baseada no respeito, na escuta, na empatia e em espaços seguros ; mas também em limites concretos: diante de práticas incompatíveis com seus princípios, a FERA optou pelo afastamento de uma de suas principais lideranças, reafirmando a firmeza ética e política na defesa do coletivo.
Como expressão desse amadurecimento, elabora-se a “Carta ao povo trabalhador brasileiro”, primeiro manifesto da FERA ; em diálogo crítico com a “Carta ao Povo Brasileiro” de 2002, posicionando-se contra a lógica de conciliação de classes. Avançam as iniciativas de comunicação, com o Instagram da FERA e a primeira aparição pública no programa “Manhã Brasil”. Nascida no segundo semestre de 2025, a FERA encontra-se em consolidação de suas bases organizativas. Este manifesto é instrumento vivo ; aberto à revisão, à crítica e à autocrítica.
Parte 03
Para onde vamos
§1Os objetivos da FERA partem do reconhecimento mútuo entre seus integrantes enquanto classe trabalhadora, coletividade diversa e camaradagem organizada. Afirma a necessidade de “nascer organizada para crescer organizada”. A crítica e a autocrítica são práticas permanentes ; ferramentas de desenvolvimento, não instrumentos de ataque individual.
§2Tem como horizonte a transformação das condições de vida da classe trabalhadora e a superação das estruturas de exploração. Reformas e revolução não são necessariamente antagônicas: reformas produzem avanços concretos e imediatos, enquanto a revolução permanece como meio fundamental para mudanças estruturais e radicais.
§3Estabelece como horizonte estratégico a construção de pontes entre trabalhadores não organizados e as diferentes expressões da organização política e social existentes, transformando experiências dispersas e insatisfações individuais em formação, articulação e força política coletiva.
§4Inserida na tradição das frentes de luta, compreende a unidade na ação como condição para enfrentar as ofensivas das classes dominantes ; articulações baseadas na independência de classe, sem subordinar os interesses da classe trabalhadora à conciliação.
§5Propõe a construção de uma Frente de Esquerda RAdical que ultrapasse limites estritamente institucionais e partidários, com presença nos espaços cotidianos de convivência, cultura e sociabilidade ; rodas de samba, torcidas organizadas, coletivos culturais e outras formas de organização comunitária.
§6Estrutura-se de maneira dialética enquanto frente suprapartidária, pela construção de sínteses políticas capazes de fortalecer ações coletivas, combinando estratégia comum, construção coletiva e liberdade tática.
§7Afirma-se como parte de um processo mais amplo: espaço de articulação, formação e acúmulo voltado à construção de uma Frente de Esquerda Radical de base social, popular e enraizada na classe trabalhadora ; alternativa às frentes amplas sustentadas pela conciliação de classes.
Parte 04
Por que FERA
Fundamentos teórico-políticos
§1 · Emancipação da classe trabalhadora.Orienta-se pela emancipação da classe trabalhadora. Reconhece como trabalhadores tod@s que vivem de seu próprio trabalho, independentemente de renda ou de como são classificados pela ideologia dominante, que busca fragmentar a classe sob categorias como “classe média”.
§2 · O trabalho como mediação.Compreende o trabalho como a forma fundamental pela qual o ser humano se relaciona com a natureza e transforma a realidade ; meio de emancipação humana. O capitalista não trabalha, mas se apropria da força vital do povo trabalhador.
§3 · Opressões como instrumentos de exploração.Racismo, misoginia, LGBTfobia e capacitismo não são fenômenos isolados, mas instrumentos articulados à lógica de acumulação e à reprodução social do capital.
§4 · A natureza social do ser humano.Rejeita a noção de uma “natureza humana” fixa que justifique o individualismo e a violência. O ser humano é ser social, formado nas condições materiais e históricas em que vive.
§5 · Relação humano-natureza.Não há separação entre ser humano e natureza. Reaprender com outras formas de existência ; especialmente de povos originários ; é avanço necessário para reconstruir o futuro.
§6 · Radicalidade como método.“Radical” indica profundidade, não moderação: significa intervir nas causas estruturais, e não apenas nos efeitos ; prática contínua de construção, formação e articulação.
§7 · Potencial revolucionário da classe.A transformação só pode ser realizada pela própria classe trabalhadora, organizada coletivamente. Por isso a organização, a formação política e a construção de consciência são fundamentais.
§8 · Autodeterminação dos povos.Cada povo tem direito de decidir seus próprios caminhos, sem imposições externas. A liberdade política só existe quando há autonomia real.
Valores e princípios
§1 · Combate inegociável às opressões.Não há transformação social possível sem combate conjunto às estruturas que organizam a exploração material e a opressão social: antirracismo; antipatriarcado e anti-LGBTfobia; anticapacitismo e antietarismo; ecossocialismo.
§2 · Antifascismo.Prática política ativa e permanente. Posiciona-se de forma inegociável contra o fascismo e o nazismo, o sionismo e o colonialismo, o imperialismo e os discursos e práticas reacionárias que naturalizam desigualdades.
§3 · Camaradagem e apoio mútuo.Cultiva relações de solidariedade, respeito e responsabilidade compartilhada. A base da FERA é o compromisso com o outro: construir condições para que ninguém fique para trás.
§4 · Crítica e autocrítica.A crítica é ferramenta de desenvolvimento, de caráter propositivo e responsável ; não ataque pessoal. A autocrítica corrige erros e fortalece a construção coletiva, sem caráter justificatório ou paralisante.
§5 · Formação política continuada.Todos os espaços da FERA são também formativos. A formação não é privilégio de especialistas: é coletiva, contínua e acessível.
§6 · Disputa de afetos e combate ao sectarismo.A luta política também se dá na disputa de valores, afetos e sentidos. Combate o sectarismo, o dogmatismo e as práticas excludentes, mantendo-se aberta ao diálogo sem abrir mão de princípios.
§7 · Centralismo democrático.Debate coletivo e decisão democrática garantem unidade na ação, com autonomia relativa na aplicação tática por núcleos, frentes e iniciativas.
§8 · Nascer organizado para crescer organizado.Rejeita tanto o espontaneísmo desestruturado quanto modelos rígidos e distantes da realidade. Clareza de funções, responsabilidades, objetivos e processos.
§9 · Independência política.Atua com independência diante de governos, partidos e organizações ; inclusive na esquerda. Autonomia não é isolamento: alianças são possíveis quando há convergência.
§10 · Suprapartidarismo.Organiza-se de forma suprapartidária, dialogando com diferentes organizações e compreendendo partidos como instrumentos importantes, sem se subordinar a eles.
§16 · Autonomia material.Não há independência política sem autonomia material. Sustentar a organização ; com transparência e prestação de contas ; é parte da própria luta política, sem comprometer a vida material de quem a constrói.
“Só a classe trabalhadora pode salvar a classe trabalhadora.”
