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Coluna · Gustavo Rocco

O Fio e a Trama

Fragmentação, identidade e organização da esquerda

Gustavo Rocco · 16 de setembro de 2026

Capa amarela com textura de tecido trançado e um fio vermelho atravessando a trama. Em letras pretas, o título O Fio e a Trama e o subtítulo Fragmentação, identidade e organização da esquerda; na faixa de baixo, as três partes do texto.

Rocco, 16.09.2026

Introdução

Este texto nasce de mais um dos nossos Encontros de Terça. Como tem acontecido outras vezes, partimos de um tema específico e acabamos chegando a questões muito maiores do que aquelas que imaginávamos discutir inicialmente. Inclusive, quase sem perceber, este encontro acabou se relacionando com o encontro e o texto anteriores (“Acolher também é fazer política: mais Paulo Freire, menos Stalin”). Não havia necessariamente uma intenção de construir uma continuidade entre eles, mas as discussões foram se encontrando e, de alguma maneira, contribuíram umas para as outras. Talvez seja justamente essa uma das riquezas desses espaços: nem sempre sabemos exatamente onde uma conversa vai terminar, mas podemos perceber, depois, o que ela ajudou a construir.

Desta vez, assistimos ao vídeo de Heribaldo Maia, “Ian Neves e os ditos comunistas: marxismo e o fetiche da linha correta”. O vídeo serviu como ponto de partida para uma discussão que já vinha aparecendo em diferentes lugares: a crítica ao amadorismo, ao sectarismo e à fragmentação da esquerda radical.

Nos últimos tempos, diversos produtores de conteúdo e militantes ligados a diferentes correntes da esquerda têm discutido publicamente essas questões. Existe uma espécie de debate sobre a própria capacidade da esquerda radical de se organizar, de construir uma atuação política comum e de superar disputas internas que, muitas vezes, parecem consumir mais energia do que a construção de qualquer força coletiva.

Mas havia uma questão que nos interessava particularmente.

Grande parte dessas discussões acontece entre pessoas que já estão, de alguma maneira, organizadas politicamente. São militantes partidários, dirigentes, membros de organizações ou pessoas com trajetórias bastante definidas dentro de determinadas correntes. E nós queríamos olhar para esse problema a partir de outro lugar.

A maioria das pessoas presentes em nossa reunião não é militante partidária. Entre as poucas pessoas que possuem ou já possuíram experiências de militância, também existem trajetórias bastante diferentes, com organizações, momentos históricos e perspectivas distintas.

Isso muda a pergunta.

Não queríamos simplesmente reproduzir a discussão que já estava acontecendo nas redes. Tampouco queríamos apenas escolher qual crítica parecia mais correta, qual organização era mais sectária ou qual corrente teria encontrado a explicação definitiva para a crise.

Queríamos tentar olhar para nós mesmos.

O que significa discutir a crise da esquerda quando não estamos necessariamente organizados em um partido? O que significa falar de sectarismo quando também fazemos parte desse campo, ainda que de maneiras diferentes? O que significa querer transformação social sem transformar a própria ideia de organização em uma condição para que alguém possa participar da construção política?

E, principalmente, o que fazemos com essa crise?

Porque existe um risco em acompanhar indefinidamente as disputas entre as diferentes esquerdas: podemos nos transformar em consumidores da própria crise.

Assistimos aos debates, acompanhamos as denúncias, compartilhamos as críticas, identificamos os erros dos outros e, pouco a pouco, podemos nos acostumar a observar a política como quem observa uma disputa que acontece sempre em outro lugar.

A discussão desta terça-feira partiu, então, de uma vontade diferente: não sermos apenas espectadores da crise que estamos identificando.

Mesmo quem não está organizado politicamente pode pensar politicamente. Mesmo quem não participa de um partido pode construir relações, disputar ideias, organizar pessoas, formar consciência e participar das lutas do seu tempo. Não estar organizado de uma determinada maneira não significa estar fora da política.

Talvez seja necessário, inclusive, questionar a própria oposição entre “organizados” e “desorganizados”. Há pessoas que não estão em partidos, mas participam de movimentos, coletivos, espaços comunitários, sindicatos, iniciativas culturais, redes de solidariedade ou simplesmente constroem, em seu cotidiano, relações e práticas que também possuem dimensão política. E há também aqueles que, por diferentes razões, ainda não encontraram uma forma de organização na qual possam se reconhecer.

O problema, portanto, não é simplesmente descobrir por que a esquerda está desorganizada.

É tentar compreender que tipo de organização pode fazer sentido para pessoas diferentes, com trajetórias diferentes, em um campo que já é diverso por natureza.

Foi a partir dessa inquietação que a conversa acabou tomando um caminho mais amplo. Começamos falando sobre a “linha correta”, mas chegamos à identidade. Da identidade, chegamos à fragmentação. Da fragmentação, às formas de crítica, ao sectarismo e às disputas por espaço. Das redes sociais, chegamos ao modo como o algoritmo pode amplificar essas disputas. E, finalmente, chegamos à organização e à possibilidade de construir uma Frente capaz de reunir diferentes experiências sem exigir que elas deixem de ser diferentes.

Este texto é uma tentativa de organizar esse percurso.

Não pretende oferecer uma nova “linha correta”. Talvez fosse contraditório terminar uma discussão sobre o fetiche da linha correta apresentando justamente outra linha que todos deveriam seguir.

A proposta é outra: olhar para a esquerda como um campo, reconhecer a dispersão que existe dentro dele e perguntar o que podemos fazer para que nossas diferenças deixem de ser apenas fronteiras e possam se transformar em parte de uma construção comum.

Por isso, o texto está dividido em três movimentos.

O primeiro procura responder a uma pergunta básica: somos um campo? Para isso, parte da história da esquerda brasileira depois da ditadura, passa pela formação do PT e do lulopetismo e chega à crise de identidade que atravessa diferentes setores da esquerda atualmente.

O segundo procura entender como esse campo se fragmenta. A busca pela linha correta, a dificuldade de fazer autocrítica, o sectarismo, o personalismo e a maneira como as redes sociais amplificam nossas disputas aparecem aqui como partes de um mesmo ciclo.

O terceiro volta à pergunta que talvez seja a mais concreta: como nos organizamos? Discutimos os limites e as possibilidades das formas organizativas que construímos, a necessidade de renovação e a possibilidade de uma Frente que não elimine a diversidade, mas seja capaz de organizá-la em torno de um projeto comum.

I. somos um campo

1. Reconhecer-nos como campo

Antes de discutir como a esquerda deve se organizar, é preciso partir de uma premissa: a esquerda é um campo político. Parece uma afirmação simples, mas dela depende a qualidade das nossas análises. Enquanto não nos reconhecermos como um campo, continuaremos interpretando nossos próprios problemas de maneira fragmentada.

Existe, porém, uma resistência em assumir essa ideia. Muitas vezes tratamos "campo" como sinônimo de unidade já realizada, como se só pudéssemos falar em um campo quando todas as organizações estivessem articuladas entre si ou compartilhassem uma mesma linha política. Essa compreensão inverte o problema. Um campo não deixa de existir porque está dividido; ao contrário, ele pode existir justamente atravessado por disputas, diferenças e múltiplas formas de organização.

Um campo político não precisa ser homogêneo. Não precisa possuir uma única organização, uma única estratégia ou sequer uma interpretação comum sobre todos os problemas. Ele é formado por diferentes partidos, movimentos, coletivos, sindicatos, organizações populares, tradições teóricas e experiências de militância. A pluralidade não é um acidente: ela faz parte da constituição desse campo.

A característica mais evidente desse campo, hoje, é a sua dispersão. Mas é importante nomear essa dispersão com precisão. Ela não é apenas organizativa. Não estamos dispersos somente porque existem muitos partidos ou coletivos. Estamos dispersos também na prática cotidiana, na construção conjunta, na capacidade de agir como parte de um mesmo horizonte político. Compartilhamos diagnósticos semelhantes, participamos de lutas parecidas e enfrentamos adversários comuns, mas frequentemente fazemos isso como experiências paralelas, incapazes de se reconhecer mutuamente.

É justamente por isso que o autorreconhecimento importa. Reconhecer-nos como campo não é um gesto simbólico nem uma declaração de boa vontade. É um exercício de autoconhecimento político. Antes de perguntar como nos unificar, precisamos compreender quem somos, quais são as nossas características históricas e quais contradições estruturam esse momento.

Se não partirmos dessa compreensão, nossas análises tendem a se tornar ineficazes — e, em alguns casos, erradas. Passamos a observar cada organização como uma realidade isolada, como se cada divergência representasse um rompimento absoluto e cada diferença produzisse um campo distinto. Perdemos a capacidade de enxergar o conjunto.

Talvez esse seja o primeiro sintoma da nossa crise: enxergamos com enorme nitidez tudo aquilo que nos separa e temos dificuldade de reconhecer aquilo que nos constitui como parte do mesmo campo. A diferença deixa de ser uma característica interna e passa a parecer uma fronteira.

Isso não significa negar as divergências. Algumas delas são profundas, estratégicas e precisam existir. Tampouco significa defender a fusão de todas as organizações. Unidade não é homogeneidade. Mas a unidade só pode ser construída por quem reconhece que já existe um campo a ser construído coletivamente.

Por isso, a pergunta inicial não é "por que estamos divididos?". A pergunta anterior é outra: o que significa assumir que somos um campo político cuja principal característica, neste momento histórico, é a dispersão? Talvez toda reflexão sobre identidade, linha política, organização e frente deva começar justamente por esse exercício de autorreconhecimento.

2. A esquerda depois da ditadura: um breve resgate histórico

Para compreender a identidade da esquerda brasileira hoje, talvez seja necessário voltar um pouco antes do PT. Não porque tudo comece ali, mas porque o PT é também produto de uma história anterior de lutas, derrotas, repressão e reorganização.

Durante a ditadura militar, instaurada em 1964, uma parte significativa das organizações de esquerda e dos movimentos populares foi perseguida pelo Estado. Comunistas, militantes de organizações revolucionárias, sindicalistas, estudantes, camponeses e outros opositores foram presos, torturados, assassinados e desaparecidos. A Comissão Nacional da Verdade concluiu que a ditadura praticou prisões ilegais, tortura, execuções e desaparecimentos forçados, caracterizando essas práticas como crimes contra a humanidade.

Essa história não é apenas um capítulo encerrado. Uma sociedade pode superar formalmente uma ditadura sem necessariamente elaborar completamente as marcas deixadas por ela. Há uma dimensão institucional, uma dimensão histórica e também uma dimensão subjetiva dessa herança. Para aqueles que viveram a repressão, para suas famílias e para as organizações que sobreviveram a ela, o medo não era uma abstração: era uma experiência concreta.

Talvez por isso seja importante pensar na ditadura também como uma ferida que permanece parcialmente aberta. Não no sentido de afirmar que toda dificuldade atual da esquerda seja consequência direta da repressão, mas de reconhecer que uma geração política foi formada sob a experiência de que organizar-se, reunir-se, militar e enfrentar o Estado podia significar perder a liberdade ou a própria vida.

O medo pode sobreviver àquilo que o produziu.

E, junto com o medo, sobrevivem também determinadas formas de organização, de desconfiança e de relação entre grupos políticos. Quando uma geração aprende que a repressão pode destruir organizações inteiras, a preservação da própria organização deixa de ser apenas uma questão administrativa. Ela pode adquirir um significado existencial.

É nesse terreno que ocorre a reorganização política dos anos finais da ditadura. As greves operárias, os movimentos populares, a reorganização sindical, as lutas pela anistia e pela democratização criaram novas possibilidades de organização. Nesse processo nasceu, em 1980, o Partido dos Trabalhadores, reunindo sindicalistas, militantes de esquerda, intelectuais, artistas e setores ligados às lutas sociais.

O nascimento do PT, portanto, não pode ser compreendido simplesmente como o nascimento de mais um partido. Ele foi parte de uma nova etapa de reorganização da esquerda brasileira depois de anos de repressão. O próprio manifesto de fundação apresentava o partido como resultado da necessidade de trabalhadores intervirem diretamente na vida política para transformá-la.

O PT passou a ocupar progressivamente um espaço importante na vida política brasileira. Participou das mobilizações pelas Diretas Já, conquistou espaços institucionais e, posteriormente, chegou ao governo federal com a eleição de Lula em 2002. Essa trajetória transformou não apenas o partido, mas o próprio campo da esquerda. O PT passou de uma experiência de organização surgida das lutas sociais a uma força central da política institucional brasileira. Lula, por sua vez, ultrapassou os limites da própria organização e tornou-se uma das principais referências políticas da esquerda brasileira.

É nesse processo que começa a se formar o problema que nos interessa aqui: quando uma organização passa a ocupar o centro da identidade de um campo, o que acontece com o restante desse campo?

Durante décadas, diferentes correntes da esquerda passaram a se relacionar com o PT de maneiras distintas. Algumas participaram de sua construção; outras disputaram seus rumos; outras romperam com ele; outras se organizaram em oposição ao seu projeto. Mas, em todos esses casos, o PT tornou-se uma referência inevitável.

Isso produz uma situação paradoxal. Mesmo aqueles que rejeitam o lulismo podem acabar tendo sua identidade política definida por sua relação com ele.

O problema, então, deixa de ser apenas o PT. Passa a ser a dificuldade de uma esquerda construir uma identidade própria quando uma determinada experiência histórica ocupa tamanho espaço no imaginário político nacional.

Talvez seja esse o ponto em que a história se transforma em problema do presente.

A questão não é apagar o que o PT representou, nem negar as lutas que deram origem a ele. Tampouco é reduzir décadas de história a uma única avaliação. É compreender que toda experiência política tem um ciclo histórico e que, quando esse ciclo se transforma, o campo que se formou ao seu redor também precisa se perguntar quem é.

O que a esquerda brasileira se torna depois do lulopetismo?

Essa pergunta nos leva de volta ao nosso problema inicial: a identidade.

3. A identidade que construímos

Talvez parte da nossa dispersão seja também uma crise de identidade.

Não apenas porque não sabemos exatamente o que queremos ser, mas porque temos dificuldade de construir um "nós" que seja maior do que cada uma das organizações que compõem esse campo.

Quando não conseguimos definir positivamente quem somos, é tentador construir nossa identidade pela negação. Somos aquilo que não é o outro: não somos reformistas, não somos petistas, não somos aqueles comunistas, não somos suficientemente radicais como eles, ou somos mais radicais do que os outros.

A identidade passa a ser construída pela diferença. E, pouco a pouco, a diferença deixa de ser apenas uma característica do campo e passa a ser aquilo que precisa ser preservado. Isso produz uma situação curiosa. Quanto mais tentamos afirmar a especificidade de cada organização, mais difícil pode se tornar reconhecer aquilo que compartilhamos. A existência do outro passa a parecer uma ameaça à nossa própria identidade.

Se uma organização cresce, outra pode enxergar nisso uma perda de espaço. Se alguém apresenta uma interpretação diferente, a divergência pode ser entendida como uma ameaça à própria existência política. O campo que deveria ser plural passa a funcionar como uma soma de pequenos territórios, cada um preocupado em proteger suas fronteiras.

Talvez seja por isso que a discussão sobre a "linha correta" adquira uma dimensão tão grande.

Ela não é apenas uma discussão sobre estratégia. Em determinados momentos, parece também ser uma disputa sobre quem tem o direito de representar aquilo que entendemos por esquerda, por comunismo ou por revolução.

E aqui aparece novamente o problema do lulopetismo.

Para quem entende que a esquerda brasileira precisa construir um caminho para além dele, não basta simplesmente rejeitar Lula ou o PT. Se a identidade anterior é abandonada sem que outra seja construída, sobra apenas a negação.

Não somos eles. Mas quem somos nós?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis para qualquer campo político. É relativamente simples definir aquilo que rejeitamos. Mais difícil é dizer, de maneira concreta, o que defendemos, que sociedade queremos construir, que relações queremos estabelecer entre nós e que tipo de organização pode expressar esse projeto.

Uma identidade política não deveria ser apenas uma etiqueta capaz de nos diferenciar dos demais. Ela precisa produzir pertencimento.

E pertencimento não significa concordância absoluta. Uma pessoa pode reconhecer-se como parte de um campo sem concordar com todas as suas organizações. Pode compartilhar um horizonte político sem compartilhar a mesma estratégia. Pode reconhecer uma luta comum sem abandonar suas próprias tradições.

Talvez seja justamente isso que ainda nos falte: uma identidade suficientemente ampla para que diferentes organizações possam se reconhecer nela sem deixar de ser diferentes. Isso exige também uma forma de autoconhecimento. Se somos um campo, precisamos ser capazes de olhar para nós mesmos não apenas para identificar nossos erros, mas para compreender nossas experiências, nossas limitações, nossas heranças e aquilo que já construímos juntos.

Precisamos conhecer nossas próprias lutas.

Precisamos reconhecer nossas próprias vitórias.

Precisamos também reconhecer nossas derrotas.

E, sobretudo, precisamos reconhecer que nenhuma organização isoladamente representa toda a experiência histórica da esquerda.

A questão, então, deixa de ser apenas "qual é a nossa identidade?"

Passa a ser: que identidade coletiva podemos construir sem precisar apagar nossas diferenças?

Talvez a resposta comece justamente quando deixarmos de tratar a existência do outro dentro do campo como uma ameaça à nossa própria existência.

II. Romper o ciclo

4. A busca pela linha correta

Se existe uma crise de identidade, uma das formas pelas quais tentamos resolvê-la é procurando uma definição mais precisa de quem somos. Queremos saber qual é a nossa linha, qual é a nossa estratégia, qual é a nossa diferença em relação aos demais. É nesse ponto que aparece a “linha correta”.

A princípio, essa busca é legítima. Organizações políticas precisam formular análises, definir estratégias e tomar decisões. Não existe prática política sem algum entendimento sobre a realidade, assim como não existe organização sem algum grau de orientação comum. O problema começa quando a necessidade de construir uma orientação passa a ser confundida com a necessidade de encontrar uma única orientação legítima.

A partir daí, a divergência deixa de ser apenas uma diferença sobre caminhos possíveis e passa a funcionar como uma fronteira entre aqueles que “entenderam” e aqueles que não entenderam. A linha política deixa de ser uma hipótese que precisa ser construída e testada coletivamente na prática e passa a funcionar como uma identidade. E, quando isso acontece, defender determinada linha significa também defender o próprio lugar dentro do campo.

É nesse terreno que o sectarismo pode crescer. Uma divergência estratégica pode se transformar em uma disputa sobre quem é mais consequente, mais radical ou mais revolucionário. A organização passa a precisar afirmar constantemente aquilo que a diferencia das demais. A diferença deixa de ser apenas uma consequência da pluralidade e passa a ser uma necessidade de existência.

Os rachas, então, deixam de ser acontecimentos excepcionais e podem se transformar em uma forma recorrente de reorganização do campo. Diante de uma divergência, em vez de perguntar como diferentes posições podem coexistir, disputar espaço ou aprender umas com as outras, a resposta pode ser a separação. Cria-se uma nova organização, uma nova identidade e, com ela, uma nova fronteira.

Nesse processo, também aparece a disputa por pequenos poderes. Organizações pequenas podem acabar disputando entre si a posição de vanguarda de um processo que ainda nem conseguiram construir. Podemos chegar à situação curiosa de termos vanguardas do nada: grupos disputando quem representa a classe, o povo ou a revolução antes mesmo de terem conseguido estabelecer uma relação política suficientemente ampla com aqueles que dizem representar.

A questão deixa de ser apenas o que somos capazes de construir e passa a ser quem possui o direito de falar em nome daquilo que queremos construir.

O personalismo aparece como uma das expressões desse processo. Se uma organização precisa afirmar que possui a leitura mais correta, também pode surgir a figura daquele que encarna essa leitura: o dirigente que se apresenta como o revolucionário mais consequente, o militante que acredita ter compreendido aquilo que os demais não compreenderam, a liderança que passa a ocupar um espaço maior do que o próprio projeto coletivo.

Existe aí uma contradição importante. Quanto mais uma organização afirma que sua tarefa é construir uma transformação coletiva, menos deveria depender da capacidade individual de alguém para representar essa transformação. Quando a figura do dirigente passa a ocupar o lugar do projeto, a política corre o risco de voltar àquilo que pretendia superar: a concentração da capacidade de decisão, interpretação e representação em poucos indivíduos.

No fundo, começamos a disputar pequenos poderes enquanto ainda somos incapazes de construir o poder coletivo que dizemos buscar.

A disputa política, então, pode se deslocar do terreno da construção para o terreno da afirmação. Já não basta construir algo; é preciso provar que aquilo que estamos construindo é mais correto do que aquilo que os outros estão fazendo. Já não basta organizar pessoas; é preciso demonstrar que nossa forma de organização é a mais revolucionária. Já não basta lutar; é preciso provar que lutamos da maneira certa.

Existe, portanto, uma relação que não é simplesmente causal, mas dialética: a dispersão produz uma necessidade de identidade; a crise de identidade alimenta a busca por uma linha que nos diferencie; essa busca pode produzir sectarismo, personalismo, disputas de pequenos poderes e novos rachas; e esses rachas, por sua vez, aprofundam a própria dispersão que deu origem ao problema.

Romper esse ciclo não significa abandonar a disputa política ou fingir que as diferenças não existem. Uma organização pode estar convencida de sua própria análise sem precisar transformar essa convicção em uma condição para reconhecer a existência política das outras.

Talvez a “linha correta”, nesse sentido, não seja algo que uma organização descobre sozinha e depois apresenta ao restante do campo. Ela pode ser entendida como uma construção permanente, produzida pelo confronto entre diferentes experiências e, sobretudo, pela prática.

A realidade não precisa se adaptar à nossa linha. Somos nós que precisamos estar dispostos a verificar nossas ideias diante dela.

5. A crítica que não olha para si

Mas talvez o problema não esteja apenas na maneira como construímos nossas linhas. Ele aparece também na maneira como lidamos com aqueles que não as compartilham.

A crítica é necessária para qualquer campo político que pretenda transformar a realidade. Sem crítica, não há aprendizado; sem autocrítica, não há correção de rota. Uma organização que nunca questiona suas próprias decisões dificilmente conseguirá compreender seus próprios erros.

O problema começa quando a crítica que deveria transformar o próprio campo passa a existir principalmente para deslegitimar o outro.

Em vez de perguntarmos “onde estamos errando?”, perguntamos “onde eles estão errando?”. Em vez de utilizarmos a crítica para corrigir nossa prática, utilizamo-la para reafirmar nossa identidade. A autocrítica deixa de ser uma disposição coletiva de olhar para dentro e transforma-se em uma forma sofisticada de acusação para fora.

É assim que podem surgir as críticas fratricidas. O adversário deixa de estar apenas fora do campo e passa a ser encontrado cada vez mais dentro dele. A energia que poderia ser utilizada para organizar, construir e disputar a sociedade é consumida pela necessidade permanente de demonstrar que o outro está equivocado.

Há algo de quase religioso nesse movimento. Não porque a política revolucionária seja uma religião, mas porque podemos reproduzir uma lógica semelhante à da pureza: a necessidade de distinguir os verdadeiros dos falsos, os consequentes dos inconsequentes, aqueles que compreenderam daqueles que se desviaram.

O “fariseu” político não precisa apenas estar certo. Precisa demonstrar que os outros estão errados.

E talvez isso se relacione com uma determinada maneira de imaginar a própria revolução. Quando a transformação social é colocada inteiramente no futuro, podemos acabar tratando o presente como um simples período de espera. A sociedade que queremos construir virá depois; as relações que queremos superar serão superadas depois; a emancipação será depois.

Mas, se acreditamos que a transformação será capaz de produzir novas relações entre as pessoas, precisamos perguntar o que fazemos dessas relações agora.

É possível defender uma sociedade sem exploração e reproduzir pequenas disputas de poder entre nós. É possível falar de emancipação enquanto nossas próprias organizações são atravessadas por personalismos, hierarquias pouco questionadas, falta de coleguismo e dificuldade de escutar. É possível imaginar uma sociedade profundamente democrática enquanto tratamos a divergência interna como ameaça.

Não precisamos - diria mais, não podemos - esperar pela revolução para começar a transformar a maneira como nos relacionamos.

Isso não significa imaginar que uma organização revolucionária possa reproduzir perfeitamente, no presente, a sociedade que pretende construir. As condições materiais continuam sendo outras, e as contradições não desaparecem porque desejamos superá-las. Mas existe uma diferença entre reconhecer essas limitações e utilizá-las como justificativa para nunca questionar nossas próprias práticas.

Talvez essa seja uma das perguntas mais incômodas que podemos fazer: se queremos construir uma sociedade nova, o que estamos reproduzindo hoje que pertence justamente à sociedade que queremos superar?

A autocrítica, nesse sentido, precisa voltar a ser uma prática do campo, e não apenas uma arma contra o outro. Precisamos ser capazes de reconhecer erros sem transformar esse reconhecimento em uma disputa por humilhação. Precisamos poder discordar sem precisar destruir a legitimidade política de quem discorda. Precisamos conseguir reconhecer uma contradição nossa sem imediatamente procurar uma contradição maior no outro.

Porque, quando toda crítica termina na descoberta de que o problema está sempre nos outros, alguma coisa deixou de funcionar.

E talvez seja justamente aí que o ciclo se fecha: a crise de identidade produz a necessidade de diferenciação; a diferenciação produz a disputa pela linha correta; a disputa produz fronteiras; as fronteiras alimentam as críticas fratricidas; e as críticas fratricidas tornam ainda mais difícil reconhecer o outro como parte do mesmo campo.

Romper esse ciclo exige algo mais difícil do que encontrar a organização certa, a liderança certa ou a linha certa.

Exige a capacidade de olhar para nós mesmos como campo.

Não para apagar nossas diferenças, mas para perguntar o que essas diferenças podem produzir quando deixam de ser apenas fronteiras e passam a fazer parte de uma construção comum.

6. Quando a disputa encontra o algoritmo

Se essas tendências já existem na política organizada, as redes sociais introduzem uma nova dinâmica capaz de ampliá-las. A internet não criou o sectarismo, o personalismo ou a disputa por espaço, mas oferece condições particularmente favoráveis para que eles se reproduzam.

A lógica das redes é baseada na disputa pela atenção. Aquilo que provoca reação, identificação, indignação ou conflito tende a circular mais. Nesse ambiente, uma discussão complexa sobre estratégia pode ser reduzida a uma frase, uma divergência política pode se transformar em uma acusação e uma diferença entre organizações pode virar uma disputa pública sobre quem é ou não é “verdadeiramente” revolucionário.

Ao mesmo tempo, os espaços digitais permitem que as pessoas encontrem grupos cada vez mais específicos. Os nichos se tornam mais nichados. Aquilo que poderia ser apenas uma diferença dentro de um campo passa a constituir uma comunidade própria, com sua linguagem, suas referências, seus inimigos e seus próprios critérios de pertencimento.

Isso produz um paradoxo. A internet tornou mais fácil encontrar pessoas que pensam como nós, mas isso não significa necessariamente que tenha se tornado mais fácil construir um campo comum. Podemos estar conectados com centenas ou milhares de pessoas e, ao mesmo tempo, cada vez mais distantes daqueles que compartilham conosco objetivos fundamentais, mas não pertencem ao nosso nicho.

A própria disputa pela atenção pode transformar a divergência em conteúdo. Brigas entre organizações, críticas a outros militantes e denúncias de desvios podem produzir mais engajamento do que uma discussão paciente sobre organização, trabalho de base ou construção de um projeto político. A plataforma não precisa decidir quem está certo para influenciar a forma como a disputa acontece. Basta recompensar determinados comportamentos com mais visibilidade.

Isso cria um novo circuito: a organização busca reconhecimento; para obtê-lo, precisa disputar atenção; para disputar atenção, pode enfatizar aquilo que a diferencia; quanto mais enfatiza a diferença, mais reforça a identidade do próprio nicho; e quanto mais forte é o nicho, mais difícil pode ser reconhecer outras partes do mesmo campo.

A lógica é particularmente perversa porque aquilo que fortalece uma organização no ambiente digital nem sempre é aquilo que fortalece sua capacidade de organização no mundo real. Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas sem produzir uma única nova relação militante. Uma denúncia pode gerar enorme repercussão sem construir qualquer capacidade coletiva. Uma briga pode ser muito mais compartilhada do que meses de trabalho silencioso.

Isso não significa que as redes sociais sejam inúteis para a política. Pelo contrário: elas podem ser espaços importantes de formação, comunicação, mobilização e organização. O problema é acreditar que a capacidade de disputar atenção é automaticamente a capacidade de construir organização.

A questão, portanto, não é abandonar as redes, mas compreender a lógica na qual estamos inseridos. Que tipo de comportamento estamos incentivando quando disputamos atenção? O que estamos construindo quando transformamos nossas divergências em conteúdo?

Talvez seja necessário perguntar, diante de cada espaço que ocupamos: estamos usando essa ferramenta para ampliar o nosso campo ou apenas para fortalecer o nosso nicho?

Porque, se o nosso problema é justamente a dispersão, não podemos medir o sucesso da nossa atuação apenas pela capacidade de fazer o nosso próprio grupo crescer.

Precisamos também perguntar se aquilo que fazemos torna mais fácil, ou mais difícil, que diferentes partes desse campo voltem a se reconhecer como parte de um mesmo “nós”.

E é justamente aí que a discussão deixa de ser sobre comunicação e volta a ser sobre organização.

III. Construir a Frente

7. A forma que temos e a forma que precisamos

Se somos um campo, a questão seguinte é como nos organizamos. Mas talvez seja necessário fazer uma pergunta anterior: organizamos para quem?

Toda forma de organização produz também uma forma de sociabilidade. Um partido, um sindicato, um coletivo ou uma frente não são apenas instrumentos para coordenar ações. Eles criam relações entre pessoas, estabelecem formas de participação, definem quem pode falar, quem pode ser ouvido, quem decide e quem executa. Por isso, discutir organização não é apenas discutir estruturas. É discutir que tipo de relação queremos construir entre nós.

Talvez uma das dificuldades da esquerda esteja justamente aí. Aprendemos a discutir a forma organizativa muitas vezes como se ela fosse neutra. Como se bastasse encontrar o modelo correto — partido, movimento, coletivo, sindicato, organização revolucionária — para que os problemas de organização estivessem resolvidos. Mas nenhuma forma existe separada das pessoas que a constroem. E nenhuma estrutura está protegida contra as contradições que pretende superar.

A forma partido foi, e continua sendo, uma das grandes experiências históricas de organização política da esquerda. Foi através de partidos que diferentes gerações conseguiram reunir militantes, elaborar estratégias, disputar o Estado, formar quadros e construir projetos políticos de longo prazo. Seria precipitado transformar as dificuldades vividas por nossas organizações numa condenação abstrata da própria forma partido.

Mas também seria igualmente precipitado tratar essas dificuldades como se fossem apenas acidentes ou desvios individuais.

Há experiências suficientes para que possamos perguntar se determinadas formas de organização, em determinadas condições, passam a reproduzir aquilo que deveriam combater. A burocratização pode transformar a estrutura em fim. A concentração de decisões pode reduzir a participação. A necessidade de disciplina pode ser confundida com silêncio. A unidade pode ser confundida com obediência. O centralismo democrático, pensado como uma forma de combinar debate e ação comum, pode perder seu caráter democrático quando o centro permanece e o debate desaparece.

Isso significa que devemos abandonar o partido? Não necessariamente.

Talvez a pergunta mais importante seja outra: o que precisa ser renovado na forma partido para que ela continue sendo capaz de organizar as pessoas do nosso tempo?

Não precisamos tratar as formas históricas de organização como peças de museu, mas também não precisamos tratá-las como dogmas. Se a realidade muda, nossas formas de organização precisam ser capazes de mudar com ela.

A esquerda não pode ficar presa à escolha entre conservar integralmente as formas que herdou ou abandoná-las completamente. Existe uma terceira possibilidade: aprender com aquilo que funcionou, reconhecer aquilo que deixou de funcionar e experimentar novas formas de organização sem perder a capacidade de construir estratégia, disciplina, formação e ação coletiva.

Isso vale também para aquilo que chamamos de militância.

Durante muito tempo, parece que construímos organizações para pessoas que já chegam prontas. Esperamos que o militante saiba participar, saiba falar, saiba estudar, saiba se sacrificar, saiba compreender a linha, saiba organizar uma reunião, saiba suportar conflitos. Mas onde essa pessoa aprende tudo isso?

Se a organização exige do indivíduo, antes de entrar, todas as características que deveriam ser desenvolvidas dentro dela, acabamos construindo espaços para poucos. E depois interpretamos a dificuldade de ampliar nossa base como uma falha das pessoas que estão do lado de fora.

Talvez seja necessário inverter a pergunta.

Não apenas: “por que as pessoas não se organizam?”

Mas também: “que tipo de organização estamos oferecendo para que elas possam se organizar?”

Organizar não deveria significar apenas recrutar para uma estrutura já pronta. Deveria significar criar condições para que pessoas diferentes possam participar, aprender, assumir responsabilidades, discordar, construir vínculos e se reconhecer como parte de algo maior.

Isso exige tempo. Exige acolhimento. Exige coleguismo. Exige capacidade de ouvir. Exige divisão de responsabilidades e disposição para formar outras pessoas, em vez de concentrar conhecimento e poder em quem já está organizado.

E talvez seja justamente aqui que a discussão sobre organização encontre a discussão sobre sociabilidade.

Se queremos uma sociedade livre da exploração e da opressão, não podemos esperar o dia seguinte à transformação social para começar a questionar as relações que reproduzimos hoje. Não construiremos uma sociedade nova apenas com pessoas organizadas por relações antigas.

Não significa imaginar que podemos reproduzir hoje, integralmente, as condições de uma sociedade que ainda não existe. Significa reconhecer que nossas formas de organização também educam politicamente. Elas ensinam como lidar com a diferença, como exercer autoridade, como dividir responsabilidades, como resolver conflitos e como construir confiança.

A questão, portanto, não é apenas qual organização queremos ter.

É também que tipo de pessoa e de relação queremos produzir através dela.

Talvez a renovação da esquerda comece quando deixarmos de procurar apenas uma forma organizativa perfeita e passarmos a perguntar que formas podem nos permitir construir, no presente, relações mais capazes de sustentar o projeto que queremos para o futuro.

8. Uma Frente de muitas esquerdas

Se nenhuma forma organizativa, sozinha, dá conta da totalidade da experiência da esquerda, talvez a resposta não esteja em encontrar uma forma única, mas em aprender a construir entre formas diferentes.

É nesse ponto que a ideia de uma Frente ganha outro significado.

Uma Frente não precisaria ser apenas uma aliança circunstancial entre organizações que se aproximam diante de uma eleição, de uma campanha ou de uma conjuntura específica. Poderia ser uma experiência política mais profunda: uma forma de transformar em prática a ideia de que somos um campo, sem exigir que deixemos de ser diferentes.

Isso significa reconhecer que a esquerda é composta por diferentes maneiras de organizar a vida política e social. Partidos, sindicatos, movimentos populares, coletivos, organizações territoriais, organizações comunitárias, experiências culturais e tantas outras formas de participação não precisam disputar entre si a condição de representar a totalidade do campo.

Podem construir juntas aquilo que nenhuma delas conseguiria construir sozinha.

A diversidade, nesse sentido, não deveria ser tratada como um problema a ser resolvido. O problema aparece quando a diversidade deixa de produzir encontro e passa a produzir isolamento. Quando cada diferença precisa necessariamente se transformar em fronteira. Quando preservar a própria identidade passa a ser mais importante do que ampliar aquilo que temos em comum.

Uma Frente poderia partir justamente do contrário.

Não precisamos apagar as diferenças para construir unidade. Precisamos criar mecanismos para que elas possam existir sem impedir a construção coletiva.

Isso também muda o significado da própria ideia de linha.

A Frente, portanto, não seria a negação das organizações existentes. Seria uma forma de colocá-las em relação.

Isso exige uma mudança importante de perspectiva. Em vez de perguntar qual organização deve crescer às custas das outras, precisamos perguntar o que podemos construir juntas que nenhuma organização conseguiria construir sozinha.

Em vez de disputar quem representa a esquerda, precisamos criar condições para que mais pessoas possam fazer parte dela.

Em vez de pensar a unidade como desaparecimento das diferenças, podemos pensar a unidade como capacidade de agir conjuntamente apesar delas.

É também nesse sentido que precisamos recuperar um significado mais amplo para a própria palavra esquerda.

Ser esquerda não deveria significar simplesmente estar à esquerda de outra organização. Tampouco deveria significar disputar permanentemente quem ocupa a posição mais radical dentro de um espectro político. Ser esquerda deveria significar estar em movimento contra as formas de exploração, opressão e dominação existentes, buscando constantemente avançar para além delas.

Se esse é o horizonte, então nenhuma organização possui sozinha a esquerda. Nenhuma liderança possui sozinha o futuro. Nenhuma tradição pode reivindicar para si toda a história das lutas populares.

E é justamente por isso que a superação do lulopetismo precisa ser compreendida para além da substituição de uma liderança por outra.

Superar o lulopetismo, para aqueles que defendem essa necessidade, não deveria significar simplesmente encontrar um novo nome capaz de ocupar o mesmo lugar. Significaria construir uma esquerda que não dependa de uma figura, de um partido ou de uma identidade única para existir.

Uma esquerda capaz de reconhecer a importância de sua própria história sem ficar prisioneira dela.

Uma esquerda capaz de aprender com as diferentes tradições que a formaram sem transformar nenhuma delas em fronteira absoluta.

Uma esquerda capaz de olhar para fora de si mesma e reconhecer que o seu objetivo não é administrar a própria fragmentação, mas ampliar a capacidade coletiva de transformar a realidade.

Talvez seja essa a síntese que estamos procurando desde o início.

9. O tempo urge

Há, porém, uma última questão que não podemos deixar de fazer: quanto tempo ainda temos para continuar repetindo os mesmos erros?

Não estamos discutindo organização em um laboratório. O mundo não está esperando que resolvamos nossas divergências internas para continuar acontecendo.

Vivemos um período marcado pela multiplicação de conflitos, pelo agravamento da crise climática, pela persistência da pobreza e da desigualdade e por profundas disputas sobre os rumos políticos das sociedades. O relatório de 2026 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas registra que apenas 36% das metas avaliadas apresentam progresso considerado adequado ou moderado, enquanto 15% regrediram em relação a 2015; o documento também aponta a escalada dos conflitos e o agravamento dos impactos relacionados ao clima.

Ao mesmo tempo, diferentes formas de autoritarismo e extrema-direita seguem disputando espaço em diferentes países. As crises se acumulam e, diante delas, a política também se transforma em disputa por respostas.

Não precisamos aceitar a ideia de que estamos diante de um destino inevitável. Mas também não podemos agir como se tivéssemos todo o tempo do mundo.

Talvez seja isso que Gramsci tenha capturado ao falar dos “sintomas mórbidos” de um período de transição: quando aquilo que existe já não consegue responder plenamente aos problemas do seu tempo, mas aquilo que poderá substituí-lo ainda não encontrou uma forma suficientemente forte para nascer.

Há algo dessa contradição na esquerda de hoje.

Temos uma história enorme, mas dificuldade de transformá-la em identidade comum. Temos organizações, mas dificuldade de organizá-las em torno de um projeto compartilhado. Temos militantes, mas muitas vezes dificuldade de transformar militância dispersa em força coletiva. Temos experiência, mas ainda insistimos em repetir alguns dos mesmos conflitos.

E talvez seja justamente por isso que precisamos olhar novamente para a nossa própria história.

Nenhuma conquista importante da classe trabalhadora e dos movimentos populares brasileiros simplesmente aconteceu porque alguém decidiu concedê-la.

Direitos foram conquistados através de organização, mobilização, greves, movimentos sociais, associações, sindicatos, campanhas e disputas políticas. A própria Constituição de 1988 foi marcada por participação social: segundo registros oficiais, foram apresentadas mais de 72 mil propostas de cidadãos e outras milhares de sugestões de constituintes e entidades representativas durante o processo constituinte.

Os direitos inscritos naquela Constituição também não surgiram do nada. A Carta ampliou direitos trabalhistas, reconheceu direitos sociais, fortaleceu a liberdade sindical e consolidou garantias fundamentais.

Isso importa porque a memória das lutas não deveria servir apenas para celebrar o passado. Ela deveria nos ensinar alguma coisa sobre o presente.

Quando olhamos para a história brasileira, percebemos que muitas das coisas que hoje consideramos normais foram, em algum momento, consideradas impossíveis, exageradas ou perigosas. Foram pessoas organizadas que transformaram reivindicações em direitos, derrotas em aprendizado e indignação em força coletiva.

Nada nos foi simplesmente dado.

Muito foi arrancado, construído, disputado e conquistado.

E essa talvez seja uma das tarefas mais importantes da esquerda hoje: recuperar essa memória não como nostalgia, mas como capacidade de imaginar novamente.

Porque uma esquerda que esquece suas próprias conquistas começa a acreditar que nada pode ser transformado. E uma esquerda que acredita que nada pode ser transformado acaba encontrando conforto apenas na própria crítica.

Precisamos fazer diferente.

Isso não significa acreditar que temos todas as respostas. Talvez uma das maiores maturidades políticas seja admitir que não temos.

Precisamos errar. Mas precisamos errar diferente.

Aprender com os erros sem transformá-los em dogmas. Reconhecer derrotas sem transformá-las em identidade. Discordar sem precisar destruir. Construir sem precisar possuir. Organizar sem transformar organização em poder sobre o outro.

Precisamos ousar lutar, mas também ousar construir. Ousar vencer, mas entender que vencer não significa apenas ocupar espaços institucionais. Significa aumentar a capacidade das pessoas de decidirem sobre suas próprias vidas. Significa ampliar direitos, enfrentar a exploração, combater a opressão, construir solidariedade e produzir novas formas de participação e poder popular.

Talvez seja esse o desafio colocado diante de nós.

Não encontrar a organização perfeita.

Não descobrir finalmente a linha que todos os outros deveriam seguir.

Não esperar pelo próximo grande líder.

Não esperar pela revolução para começar a transformar nossas próprias relações.

O desafio é construir, no presente, a capacidade coletiva de transformar o futuro.

Porque, se somos um campo, precisamos deixar de agir apenas como fragmentos.

Se somos muitas esquerdas, precisamos aprender a construir juntas.

Se temos uma história de lutas, precisamos fazer dessa memória uma ferramenta para novas lutas.

E se o tempo urge, talvez não possamos mais nos dar ao luxo de transformar nossas diferenças em motivo para permanecer separados.

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Gustavo Rocco

Colunista

Gustavo Rocco

Do Canal do Rocco. Autor de “Quando o fio se rompe” — crônicas que acompanham a Revolução Russa pela perspectiva de gente comum. Escreveu o texto inaugural dos Encontros de Terça.

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