A história inteira, contada sem jargão: o que a gente fez, por que fez
desse jeito, o que deu errado no caminho e como você confere tudo sozinho.
01
O resultado
O sorteio foi feito em 22 de setembro de 2026, às 12h27. Sete prêmios,
sete pessoas diferentes.
1ºCinismo e a morte da esquerda brasileiranº 121P09
2ºBrasil, Veneza dos Trópicosnº 148P05
3ºQuando o fio se rompe… A greve das tecelãs russasnº 001P01
4ºCamiseta Kombi · Web-Comunistasnº 020P02
5ºCamiseta “Bota a Fera na Rua”nº 069P04
6ºCupom de 15% na Loja FERAnº 060P14
7ºHistórias da Grande Guerra Patrióticanº 058P17
Aquele “P09”, “P05” é um apelido. Quem comprou sabe qual é o seu,
porque sabe o número que comprou. Quem é de fora não descobre o nome de ninguém — e essa
foi a ideia desde o começo. Volta nisso na seção 11.
Quem ganhou vai ser avisado pelo contato que deixou na compra.
02
O que foi a rifa
150números à venda
123números vendidos
19pessoas
R$ 615arrecadado
Cento e cinquenta números a cinco reais cada, sete prêmios, para bancar a própria
organização. A FERA não vive de patrocínio, de fundo partidário nem de dinheiro de
empresário. Vive de quem trabalha.
Seiscentos e quinze reais é pouco dinheiro. E é muita coisa — porque é dinheiro que não
vem com dono, e não cobra nada em troca.
Dezenove pessoas compraram os 123 números. Quem comprou dez números tinha dez chances de
ser sorteado, mas levaria um prêmio só. Isso foi decisão da FERA, e tem consequência
prática: é o motivo de alguns números terem sido sorteados e não valerem nada. Explico na
seção 07.
03
Os prêmios, um por um
Sete prêmios: quatro livros — três deles autografados —, duas camisetas
feitas só para esta campanha e que não são vendidas na loja, e um vale-desconto. Abaixo,
cada um com foto, ficha e quem levou.
1º prêmionº 121P09
Cinismo e a morte da esquerda brasileira
Livro autografado · Jones Manoel e Heribaldo Maia
Jones Manoel e Heribaldo Maia revisitam as Jornadas de Junho de 2013, os vinte anos de governo do PT e a ascensão da extrema direita para fazer uma pergunta incômoda: o que sobrou da esquerda brasileira, e no que ela se transformou pelo caminho.
O alvo do livro é o conformismo — a tese de que não havia alternativa, repetida até virar senso comum. Os autores chamam isso de cinismo e argumentam que ele converteu parte da esquerda em gestora do capital, em vez de adversária dele.
É o tipo de leitura que a FERA existe para disputar: crítica feita de dentro do campo, sem concessão. O exemplar sorteado vai assinado pelos autores.
Ali Ramos propõe um projeto geopolítico e geoestratégico para o Brasil deste século: uma alternativa soberanista para um país que, num cenário global cada vez mais instável, precisa decidir se é sujeito ou objeto da disputa entre potências.
O livro trata defesa, teoria militar e projeção regional como assunto de esquerda — terreno que a esquerda brasileira costuma deixar vago, e que o autor discute a partir dos estudos que também alimentam seu canal Vento Leste.
Gustavo Rocco conta a Revolução Russa pela perspectiva de quem quase nunca aparece nos livros de história: as tecelãs de Petrogrado, cuja greve de fevereiro de 1917 acendeu o estopim que derrubaria o czarismo.
São crônicas de gente comum fazendo história sem saber que fazia — a greve começou por pão e jornada, e terminou mudando o século. É a contramão da narrativa que reduz revolução a nomes de grandes líderes.
Em 2018, disseram que a esquerda radical brasileira não encheria uma Kombi. A frase virou piada pronta contra quem insistia em organizar fora do centro — e, como acontece com toda provocação bem feita, foi adotada por quem ela pretendia diminuir.
Gilberto Maringoni, cartunista e professor, transformou a Kombi em estampa. A arte é autoral e assinada por ele; a peça da rifa é exclusiva da campanha e não é vendida na loja.
O lobo-guará à frente da multidão, em vermelho e preto: a estampa nasceu da palavra de ordem da campanha, bota a FERA na rua. Estampada nas duas faces, é roupa de ato, não de vitrine.
Modelo exclusivo da rifa, fora do catálogo da loja.
Um vale único de 15% de desconto para uma compra na Loja FERA, a loja militante da Frente — camisetas, canecas, ecobag, bottons e ímãs produzidos com a Umapenca.
O cupom é enviado ao ganhador junto do resultado do sorteio, e cada real que sai da loja volta para a organização: é assim que a FERA se sustenta com a própria classe, sem depender de patrocínio.
Livro · Org. Francisco Carlos Teixeira da Silva e João Claudio Platenik Pitillo
Treze artigos inéditos sobre a Grande Guerra Patriótica — o nome que a União Soviética deu à sua guerra contra o nazifascismo, e que no Ocidente costuma virar nota de rodapé de uma história contada pelos aliados ocidentais.
Organizada por Francisco Carlos Teixeira da Silva e João Claudio Platenik Pitillo, a coletânea recupera passagens da luta do Exército Vermelho com ilustrações e até uma história em quadrinhos — formato raro para um tema geralmente tratado só em manual acadêmico.
Foi o prêmio decidido na plenária de 07/08/2026, o sétimo da rifa.
Organizadores
Francisco Carlos Teixeira da Silva e João Claudio Platenik Pitillo
Toda rifa tem o mesmo problema, e quase ninguém gosta de falar dele em voz alta:
Como é que você sabe que quem organizou não escolheu o ganhador?
A resposta de sempre é “confia em mim”. E olha, na maioria das vezes dá para
confiar mesmo. Mas a gente não queria dar essa resposta.
Não porque a FERA seja melhor que os outros. É por outro motivo: uma organização que
pede confiança sem oferecer nenhum jeito de conferir está pedindo exatamente aquilo que a
gente critica quando vem dos outros. Se a gente acha que “confia em mim” não basta vindo
de banco, de governo ou de patrão, não pode bastar vindo da gente.
Então o sorteio foi montado de um jeito em que você não precisa acreditar na
nossa palavra. Pode conferir. E se a gente tivesse mentido, dava para provar.
05
A ideia: lacrar antes, sortear depois
A solução tem duas partes, e o que faz ela funcionar é a ordem entre
elas. Vou explicar primeiro com uma comparação.
Imagine assim
Você escreve num papel a lista de todo mundo que está participando. Coloca o papel
num envelope e lacra na frente de todo mundo. O envelope fica à vista,
fechado.
Aí você pede para outra pessoa — alguém que não tem nada a ver com a
rifa, que você não conhece e não pode influenciar — jogar um dado.
O número do dado, combinado com a lista que já estava lacrada, diz quem ganhou.
Você não pode ter escolhido a lista sabendo o dado, porque lacrou
antes. E não pode trocar a lista depois, porque o envelope está lacrado à vista.
O sorteio da FERA é exatamente isso. Só que em vez de envelope e dado, com duas coisas
que funcionam melhor.
A parte do envelope: a impressão digital
Existe um jeito de resumir qualquer texto num código de 64 letras e números. Chama-se
hash, mas pode pensar nele como uma impressão digital do texto.
Se o texto mudar qualquer coisa — um número, uma vírgula, um espaço —
a impressão digital vira outra, completamente diferente.
Não existe caminho de volta: da impressão digital ninguém consegue descobrir o texto.
E ninguém consegue inventar um texto diferente que dê a mesma impressão.
Então publicar a impressão digital da lista é como lacrar o envelope na frente de todo
mundo: a gente mostra que tem uma lista, mostra que ela não vai mudar, e não revela nada
sobre ninguém.
O número aleatório não sai do computador da FERA. Sai de uma rede pública chamada
drand, mantida por universidades, laboratórios e empresas espalhados pelo
mundo — gente que não se conhece e não tem interesse nenhum numa rifa brasileira.
Essa rede publica um número novo a cada 30 segundos, para sempre, e
cada número vem assinado. Ninguém — nem quem opera a rede — consegue prever ou encomendar
o número de uma rodada futura.
A gente anunciou, antes, qual rodada valeria: a de número
6.483.806, que nasceria no domingo, 20 de setembro, às 20h.
A ordem é tudo
A lista foi lacrada na sexta-feira, 19/09, às 21h32. A impressão
digital foi publicada no domingo, 20/09, às 11h09. E o número aleatório
só nasceu no domingo às 20h.
Quando a lista foi lacrada e publicada, o número ainda não existia para
ninguém no mundo. Nem para a FERA, nem para quem opera a rede drand.
06
O que aconteceu, dia a dia
1
Sexta, 19/09 · 19h38
As vendas foram encerradas
123 números vendidos, 19 pessoas. A partir dali, ninguém mais entra.
2
Sexta, 19/09 · 21h32
A lista foi lacrada
O sistema gerou a impressão digital dos 123 números e a gravou. Esse é o momento
em que o envelope fecha: a partir daqui, mudar qualquer coisa na lista faria a
impressão digital não bater mais.
3
Domingo, 20/09 · 11h09
A impressão digital foi publicada
Publicada em ferabrasil.org/compromisso, com um
carimbo de data que a FERA não controla. Isso importa: um arquivo no
nosso próprio servidor não prova data nenhuma — a gente poderia ter escrito depois e
mexido no relógio. O carimbo vem de fora, e a seção 08
explica de onde.
4
Domingo, 20/09 · 20h00
O número aleatório nasceu
A rede drand publicou a rodada 6.483.806, que a gente tinha anunciado dias antes.
Qualquer pessoa no mundo pode consultar esse número e ver que ele é o mesmo que a
gente usou.
5
Terça, 22/09 · 12h27
O sorteio foi apurado
O sistema buscou a rodada na rede, conferiu a assinatura dela —
se não fechasse, nada seria gravado —, fez a conta em cima da lista lacrada e gravou
o resultado. Uma única vez: rodar de novo devolve exatamente o mesmo.
Por que alguns números foram sorteados e não valeram nada
Seis números saíram e não deram prêmio. Isso não é erro — é a regra de
um prêmio por pessoa funcionando.
Funciona assim: o sistema sorteia um número. Se o dono daquele número já ganhou
um prêmio antes, o número é pulado e o sorteio continua até achar alguém que ainda não
ganhou. Todos os pulos ficam registrados, com o motivo.
Os seis pulos desta rifa
nº 091 — P09 já tinha levado o 1º prêmio
nº 038 — P02 já tinha levado o 4º
nº 139 — P05 já tinha levado o 2º
nº 143 — P02 já tinha levado o 4º
nº 122 — P09 já tinha levado o 1º
nº 037 — P04 já tinha levado o 5º
Repare que P09 aparece duas vezes e P02 também. São pessoas que compraram vários números
e tiveram vários sorteados — mas levam um prêmio só.
Por que essa regra existe: para o dinheiro se espalhar em vez de
concentrar. Sete prêmios na mão de sete pessoas alcança mais gente do que sete prêmios na
mão de três. E ela foi definida antes do sorteio, gravada junto com a
lista lacrada — não é algo que a gente decidiu depois de ver quem tinha saído.
Uma observação honesta: quem comprou mais números teve mais chance de ser sorteado. A
regra não iguala as chances — ela só impede o acúmulo de prêmios.
08
Como você confere
Você não precisa acreditar em nada do que está escrito aqui. Dá para conferir em três
níveis, do mais simples ao mais técnico. O primeiro não exige nada além de olhar.
Os dois têm que mostrar exatamente o mesmo código. Se forem diferentes,
a lista foi mexida depois de lacrada — e aí o sorteio não vale.
Nível 2 · Conferir o número aleatório (5 minutos)
Na ata está o endereço da rodada na rede drand. Abra, e compare o número que aparece lá
com o que a ata diz ter usado. Esse endereço não é nosso — é da rede
pública, e a gente não tem como mexer no que ele responde.
Nível 3 · Refazer a conta inteira
A regra de cálculo está publicada na ata. Quem programa pode pegar a lista lacrada mais
o número aleatório e refazer tudo. Tem que dar exatamente os mesmos sete
ganhadores — não é uma conta que pode dar resultados diferentes.
E o tal do carimbo de data?
Mencionei que a impressão digital foi publicada com um carimbo que a FERA não controla.
Ele é feito por um sistema chamado OpenTimestamps, que registra o
documento na rede do Bitcoin.
Não tem nada a ver com dinheiro, investimento ou criptomoeda — a gente não comprou nem
vendeu nada. Está usando só uma propriedade dessa rede: ela guarda um registro público e
ordenado no tempo, que ninguém consegue reescrever depois. Serve de carimbo de
correio que não dá para falsificar.
O documento desta rifa está carimbado em três blocos dessa rede. Se um dia alguém
disser que a FERA forjou a data, a resposta não é a nossa palavra — é conferir o carimbo.
09
O que deu errado
Um relato que só conta os acertos é propaganda. Então: duas coisas deram errado.
O sorteio de sexta não aconteceu
Estava marcado para sexta, 19/09, às 20h. A lista foi lacrada às 21h32 daquele dia — mas
o passo seguinte, publicar a impressão digital, não foi feito a tempo.
O motivo é prosaico: o site tem duas áreas internas com nomes parecidos, e quem operava
estava procurando o botão na área errada. Quando a hora chegou, o sistema
recusou fazer o sorteio — e recusou certo. Sem a publicação anterior ao
número aleatório, não existe prova de que a lista não mudou. Um sorteio feito ali valeria
menos do que nenhum.
Nada se perdeu: nenhum resultado foi gerado, nenhum número mudou de dono, nenhum dado de
ninguém vazou. Aquele lacre foi descartado e um novo foi feito.
Um botão que nunca tinha funcionado
Na hora de descartar o lacre antigo, o botão deu erro. Investigando, descobriu-se que
ele nunca tinha funcionado: uma proteção no banco de dados impedia
qualquer alteração no lacre, incluindo apagá-lo. A correção existia havia dias, escrita,
mas nunca tinha sido aplicada. Foi aplicada, e o descarte funcionou.
Por que isso está aqui
Porque se a gente vai pedir para você conferir o que deu certo, tem que contar o que
deu errado. Uma prestação de contas que escolhe o que mostrar não é prestação de contas.
10
Por que o resultado saiu antes da apresentação
A ideia era apresentar o sorteio ao vivo e revelar o resultado na hora. Não foi assim, e
a razão é importante.
O número aleatório nasceu no domingo às 20h. E a ata publica a lista lacrada e a regra de
cálculo — de propósito, porque é isso que permite conferir. Só que isso tem uma
consequência:
A partir do domingo às 20h, qualquer pessoa com um computador já
conseguia calcular quem tinha ganhado.
O resultado estava determinado e era público na prática. Não dava para “segurar” coisa
nenhuma — dava só para atrasar a exibição.
E atrasar a exibição seria pior: criaria uma janela em que quem está dentro da
organização sabe e quem está fora não. Justamente o contrário do que a rifa inteira se
propôs a fazer. Então o resultado foi apurado e publicado assim que a decisão foi tomada.
A apresentação ao vivo continua acontecendo — mas mostrando como foi,
não revelando o que já estava público.
A lição, para a próxima
Entre o momento em que o número aleatório nasce e o momento de apurar, deve haver o
menor tempo possível. Idealmente minutos. Foi o que ficou registrado na documentação
para o próximo sorteio.
11
O que ninguém vê
Dá para provar um sorteio inteiro sem expor as pessoas que participaram. É por isso que
na ata aparecem apelidos e não nomes.
Público
quantos números foram vendidos e quantas pessoas participaram
a impressão digital da lista
o número aleatório e de onde ele veio
a regra de cálculo, inteira
o resultado e os números pulados
apelidos: P01, P02, P09…
Privado — não sai nem para conferir
nomes
telefone e e-mail
CPF
endereço
protocolo individual de compra
qualquer dado de pagamento
Esses dados existem, claro — sem eles não dá para entregar o prêmio. Mas ficam numa área
interna, que exige login, e que nunca foi mostrada em transmissão nenhuma.
Nem mesmo a lista de quem ganhou aparece com nome em lugar público.
Quem ganhou reconhece o próprio apelido porque sabe qual número comprou. Para todo mundo
mais, é só um código.
12
O que acontece agora
As sete pessoas sorteadas vão ser avisadas pelo contato que deixaram na compra.
A entrega é combinada uma a uma — Correios ou em mãos, como a pessoa preferir.
Cada passo fica registrado: quando foi avisada, quando respondeu, quando o prêmio
saiu e quando chegou.
Obrigado a quem bancou. É a classe sustentando a própria organização. ✊
Se você tem qualquer dúvida sobre o sorteio — inclusive dúvida desconfiada, que é o tipo
mais útil — fala com a gente. A rifa inteira foi construída para que a resposta nunca
precise ser “confia”.