- Data
- Terça-feira, 30 de junho de 2026
- Horário
- Início às 19h00 (GMT-3) · duração aproximada de 1h57
- Formato
- Reunião virtual, com gravação e transcrição automática. Sessão em formato especial de bate-papo guiado com convidado (perguntas preparadas + fala livre), no lugar do debate político direto de costume
- Pauta
- Informe do blog da Fera · palestra sobre cibersegurança e soberania digital com o convidado Raul (em espanhol, com facilitação e tradução da Mari) · debate aberto sobre redes sociais, ruas × digital e organização
Síntese elaborada a partir da transcrição automática da gravação — que mesclou português e espanhol e contém ruído de reconhecimento de voz. É, portanto, uma interpretação dos pontos principais, não um registro literal fala a fala. Correções e complementos são bem-vindos.
01 Contexto e formato
Encontro regular de terça-feira do coletivo Fera, desta vez em formato especial: um bate-papo guiado sobre cibersegurança e soberania digital, conduzido a partir de perguntas preparadas pela Mari ao convidado Raul, seguido de fala livre dos participantes. A escolha do formato responde a uma queda na frequência dos encontros: a proposta é diversificar as sessões — palestras, cultura, arte — para além do debate político “cru”, ampliando os motivos de reunião e atraindo mais gente.
InformeBlog da Fera
Rocco propôs a criação de um blog da Fera, tendo como uma das colunas os encontros de terça: publicar, em algumas semanas, sínteses dos debates — dúvidas e ideias que surgem — como forma de expandir para fora o que hoje circula apenas internamente (sem, por ora, divulgar gravações). Serviria também de chamariz para novas pessoas, tanto para assistir quanto para apresentar. Raul foi o primeiro convidado “de fora” em todos os sentidos — de fora da comunidade e do Brasil.
02 Participantes
Sessão com grupo reduzido e a chegada de duas pessoas novas — a convidada Ângela e o palestrante Raul:
| Participante | Papel / apresentação |
|---|---|
| José Carlos Ferreira | Anfitrião e fundador da comunidade (nascida da audiência do Farol Brasil / Jones Manoel). Conduziu os informes, apresentou os convidados e trouxe a discussão de estratégia política institucional |
| Rocco | Secretário-geral, organiza o coletivo. Propôs o blog e puxou o debate sobre soberania tecnológica; fez a síntese reflexiva de encerramento |
| Mari | Participa da Nova Zelândia. Facilitou e traduziu a palestra (PT↔ES) a partir de um roteiro de perguntas; propôs o projeto de hortas comunitárias |
| ocapitaliso | Usuário ocapitaliso (“O Capitalista Sem Capital”), camarada de Recife, da área de tecnologia; será anfitrião da viagem à campanha do Jones. Trouxe as questões mais duras da noite — descentralização, captura pelo capital e o uso estratégico da tecnologia pela esquerda |
| Ângela Lasarte | Convidada (primeira vez). Médica, vizinha do José Carlos em Diadema há ~3 anos; nascida na Itália (família ítalo-espanhola), esteve em Cuba sete vezes (1997–2019) |
| Raul | Convidado palestrante. Fala espanhol; viveu em vários países (Reino Unido, Canadá, EUA, Nova Zelândia, hoje Austrália). Desenvolvedor — trabalha em rodar modelos de linguagem localmente no celular |
Foram citados, ausentes ou em contexto: Bet, Diogo e a companheira Anne, Fran e o esposo (para os encontros presenciais em organização); e as referências Jones Manoel, Eduardo Moreira e os deputados Glauber, Sâmia e Fernanda Melchionna.
03 Informes e encaminhamentos
- Criar o blog da Fera, com uma coluna dedicada aos encontros de terça e às sínteses dos debates. (Rocco)
- Pedir ao Raul, via Mari, indicações de textos, artigos e livros sobre cibersegurança — técnicos e políticos — para incluir na síntese deste encontro. (Rocco / Mari)
- Convidar Raul novamente, inclusive para o Farol Brasil — reconhecendo sua contribuição e o pertencimento latino-americano. (coletivo)
- Encontro presencial regional (São Paulo), previsto para o segundo semestre, sem data fechada — Ângela e o esposo convidados a participar. Some-se a ele a viagem a Recife para a campanha do Jones, com ocapitaliso como anfitrião. (José Carlos / Rocco)
- Diversificar os formatos dos encontros (palestras, cultura, arte) para reverter a queda de frequência e atrair novas pessoas. (coletivo)
- Encaminhar o projeto de hortas comunitárias da Fera como “terceiro espaço” presencial e formativo — hortas em Recife, Diadema, Oakland e onde mais brotar. (Mari)
- José Carlos prepara uma apresentação sobre um livro do Elias que terminou de ler, para compartilhar num próximo encontro. (José Carlos)
04 Resumo das discussões
4.1 · PalestraCibersegurança e soberania digital (Raul)
Facilitada e traduzida pela Mari, a fala do Raul partiu da vigilância e manipulação de dados: o Facebook de 2012 e o caso Cambridge Analytica, com os dados usados para radicalizar eleitores (eleição de Trump; o referendo do Brexit como “laboratório”). “Nós entregamos a informação de graça; eles nos devolvem publicidade e vendem nossos dados.” Com a inteligência artificial, essa capacidade de análise e controle tornou-se exponencial — o que antes exigia dez pessoas, hoje uma pessoa faz com um modelo de linguagem.
A diretriz prática que atravessou toda a fala foi “escolha suas batalhas” — reduzir a exposição por camadas (a analogia da cebola): proteger primeiro o celular, depois o computador, depois cada conexão. Recomendações concretas na seção Ferramentas citadas.
- Descentralização como eixo: rodar o próprio servidor ou rede social; rodar modelos de linguagem localmente (obtendo boa parte do valor de um ChatGPT/Claude sem entregar dados); serviços de inferência distribuída (GPUs espalhadas pela internet, dados encriptados por nó). Prometeu enviar links de referência.
- Software livre / código aberto como garantia estrutural: código auditável e compilável do zero; se ninguém tem controle total, é mais difícil capturar. Citou a China / DeepSeek publicando pesquisa e modelos abertamente — qualquer um pode rodar localmente — contra a lógica do capital que se apropria de tudo.
- Subverter o capitalismo por dentro: consumir menos; moeda e trocas comunitárias que descolem do capital central; cooperativas como forma de transferir a exigência de democracia dos espaços centralizados para os distribuídos; criar incentivos que cuidem das pessoas e do meio ambiente.
A Mari trouxe a dimensão da proteção coletiva (além da individual — ela própria migrou do Gmail para o Proton): como proteger a plataforma que a Fera está construindo para que as informações não sejam usadas contra os participantes, e o risco de o Google/IA captarem o que se diz nas reuniões.
4.2 · DebateDescentralização, captura e o uso estratégico da tecnologia (ocapitaliso)
Foi o ocapitaliso quem puxou o fio mais denso da noite. Da área de tecnologia, contou que seu alerta sobre vigilância é anterior à própria politização: num evento técnico em 2013, sem nenhum viés político declarado, um sujeito que “já fugia do Google” lhe abriu os olhos — enquanto ele mesmo “subia todas as fotos e dizia amém a tudo”. A privacidade, portanto, como um problema que precede a esquerda, mas que a esquerda não pode ignorar.
Ainda assim, defendeu a rede como espaço de disputa, a ser ocupado como se ocupa a rua: foi ouvindo comunicadores nas redes — Jones Manoel, Humberto, entre outros — que ele próprio chegou ao pensamento de esquerda. Mesmo com shadow ban e opacidade (comentários que ninguém responde; criadores “despriorizados” do nada, sem aviso), é preciso disputar — “seja essa rede ou outra”.
Apoiou a soberania e as redes brasileiras levantadas pelo José Carlos, mas com uma ressalva afiada — “não é só ser brasileiro por ser brasileiro; tem que ser um brasileiro em que a gente tenha certo controle do povo” — e a desconfiança de entregar essa tarefa ao Estado capitalista. Daí o nó que o move:
- O paradoxo da descentralização. A saída descentralizada do Raul é interessante, mas como impedir que grandes capitais se apropriem do que se constrói de forma distribuída? Citou a blockchain do Bitcoin — em que governos perdem o domínio e o processo pode ser cooptado por grandes capitais (lembrando que a blockchain, como tecnologia, é distinta do Bitcoin). Para ele, esse é o principal desafio.
- Cooperativas não bastam. São boa primeira vivência, mas não superam o capitalismo — “participam dele, corrigindo distorções”. “A minha pira é essa: todo dia penso nisso e não tenho a resposta.” Foi essa inquietação que o levou a provocar o Raul, buscando ouvir quem tem mais conhecimento técnico.
- O digital como condição para a rua. Acredita que a luta se ganha na rua — “mas, pra chegar na rua, a gente precisa do digital”. Não se mobiliza só com panfleto e jornal impresso enquanto a direita domina o digital e despeja fake news pelo celular: “a disputa está nesse nível.”
- Contra o “vamos ver até onde dá”. O que o incomoda na esquerda é a postura do “se der, deu; se não, tô tranquilo”. É preciso pensar não só “no que dá para fazer”, mas “no que é preciso fazer” — e com urgência pessoal: “não quero ficar lutando por muito mais tempo; quero que a gente alcance isso”. Ofereceu a dureza como encorajamento, não desânimo.
No fecho, a imagem que sintetiza sua posição: como um Power Ranger diante de um monstro do tamanho de um Megazord, restam dois caminhos — “ou uma rasteira muito bem dada”, para derrubar o capitalismo por dentro, ou nos organizarmos muito para virar o próprio Megazord. A tecnologia seria o “atalho” entre os dois. Somou-se ao ponto da Ângela sobre do que se está disposto a abrir mão por um bem comum, e confessou viver isso todos os dias: “toda vez que sento para trabalhar, queria estar codando algo para destruir essa desgraça por dentro.”
4.3 · DebateSoberania tecnológica, científica e educacional (Rocco)
Rocco articulou a cibersegurança à soberania digital — tripé tecnológico, científico e educacional. A segurança pública já inclui os crimes virtuais (ex.: as “panelas” do Discord), que começam no virtual e extrapolam para o real. Anotou-se a equação difícil: soberania é controle, e há um equilíbrio complicado entre monitoração, segurança e privacidade — mais de uma, menos da outra.
4.4 · DebateEstratégia política institucional (José Carlos)
José Carlos puxou o plano institucional: fortalecer a bancada da esquerda radical no Congresso (hoje Glauber, Sâmia, Fernanda Melchionna e poucos outros — menos de cinco atuando em conjunto; a meta seria eleger 10 a 15). Defendeu que o programa de 10 pontos dessas candidaturas — cujo primeiro é o fim do teto de gastos — incorpore a soberania de dados: uma estatal para terras raras (o Brasil está entre os maiores detentores) e uma estrutura pública de rede soberana e proteção de dados, aproveitando a expertise de empresas públicas de TI (Celepar/PR, Prodam/SP, Prodesp/SP) — algo que “só o governo faz”. Criticou a onda de privatizações (Ratinho/PR) e lembrou Eduardo Moreira buscando parceria tecnológica com a China para escapar da dependência do Google. Um deputado tem um “megafone” muito maior — daí a importância de levar o tema ao Congresso.
4.5 · DebateRuas × redes: presença, bolhas e hortas comunitárias
- Ângela — o mais assustador na comunicação de hoje é a ausência dela: “gritar no vazio”, o algoritmo que silencia (shadow ban) e escolhe quem ouve o quê. Somos “grandes corajosos no Instagram e grandes covardes na rua”; é preciso voltar à rua, ao contato presencial — “nenhuma revolução se fez calada”. Refletiu sobre abrir mão por um bem comum (toda revolução teve lideranças dispostas a isso) e apontou a COVID, que ela viveu como médica, como “marca máxima” da desunião imposta.
- ocapitaliso — no debate coletivo, reforçou a rede como espaço de disputa e o digital como ponte para a rua, e acolheu de Ângela a pergunta sobre do que estamos dispostos a abrir mão. Sua contribuição, mais longa, está desenvolvida em 4.2.
- Rocco — todo sistema cria as bases que o destroem; não sejamos ludistas. As redes explodiram na pandemia e intensificaram os encontros que o neoliberalismo já nos tirava (trabalho, praça, shopping). O problema das bolhas é a “linha única” hipervalorizada que barra o debate; mais do que “furar a bolha do outro”, é preciso furar a própria bolha e construir espaços saudáveis. Transformar “mídias dissociais” em mídias sociais — “um pouco de covardia na rede e um pouco de coragem na rua”, com o medo entendido como respeito e cuidado.
- Mari — bolhas são como bolhas de sabão: fáceis de estourar, mas fáceis de se fundir pelo que têm em comum (o diagrama de Venn da classe trabalhadora — alimentar crianças, o SUS). Defendeu encontros presenciais de caráter formativo e criativo e o projeto de hortas comunitárias da Fera como “terceiro espaço” que reconecta as pessoas ao ato de se alimentar. Inspiração nos Panteras Negras (café da manhã para crianças + jornais e quadrinhos): usar as ferramentas do capitalismo, mas “o que importa mais é a barriguinha cheia”.
“Precisa ter um pouco de covardia na rede e um pouco de coragem na rua.”
— Rocco
05 Ferramentas citadas
Recomendações práticas levantadas pelo Raul ao longo da palestra — registradas aqui como referência, a serem complementadas pelas indicações de leitura que ele enviará.
| Em vez de | Considerar | Por quê |
|---|---|---|
| Signal | Mensageria com menos exposição; usar as centralizadas de forma seletiva | |
| Gmail | Proton (mail + senhas) | Provedor menos abusivo com os dados — “escolha suas batalhas” |
| Conexão aberta | VPN (sempre) | Reduz rastreio; desconfiar de VPN grátis (“se é grátis, o produto é você”). Na rua, celular em modo avião — a triangulação de antenas localiza você |
| Android padrão | GrapheneOS / Linux | Sistemas que respeitam a privacidade, auditáveis e compiláveis do zero |
| ChatGPT na nuvem | Modelos locais / distribuídos | Rodar LLMs no próprio hardware protege os dados; DeepSeek publica pesquisa e modelos abertos |
| Bitcoin | Monero · Zcash | Bitcoin é rastreável nos nós; alternativas com mais privacidade (fora do modelo proof of work) |
| Software proprietário | Código aberto / livre | Auditável; sem controle total por um só grupo — antídoto contra captura |
06 Encerramento
Encerrou-se no horário de costume (por volta das 21h). O grupo agradeceu ao Raul pela contribuição e pela abertura latino-americana do encontro, e deu as boas-vindas à Ângela, convidada a voltar e a trazer seus próprios temas. Ficou reafirmada a intenção de combinar o virtual e o presencial — o encontro regional no segundo semestre e a viagem a Recife — e de seguir diversificando os formatos das terças. Confirmado o próximo encontro na terça seguinte.
Nas palavras de José Carlos ao se despedir, a divisa do coletivo: “endurecer sem perder a ternura”.